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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Micro contos - Opinião

04.05.20, Alice Alfazema

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Ilustração  Víctor Escandell

 

Era um prédio frágil e com muitos andares, o isolamento acústico era péssimo entre as casas, qualquer pessoa podia ouvir o que se passava na casa de outro vizinho. Era tão real a sensação de estarem na casa uns dos outros que alguns batiam com força à porta dos vizinhos e gritavam a sua opinião sobre a conversa que tinham ouvido desde a sua casa.

 

Diário dos meus pensamentos (45)

Dia da Mãe 2020

03.05.20, Alice Alfazema

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Ofereceram-me esta rosa logo pela manhã, fiquei feliz, estes mimos deixam-se feliz, é na simplicidade dos gestos que conhecemos a capacidade  e a sensibilidade de cada um. Obrigada. Vou colocá-la aqui, tal como te disse, para abrilhantar este meu Dia da Mãe. Foi um dia tranquilo, com muito calor, o fim de tarde a cheirar a Verão, as andorinhas andam às voltas antes de se aninharem, o Ginjas ladra por tudo e por nada, penso que está a precisar de férias dos humanos. A sobremesa foi mousse de chocolate, daquela que se aloja nas ancas, preparada pelos filhos. Tudo parece normal. É domingo, festejamos também o dia do Sol, ele hoje vestiu-se a rigor. A noite cai agora, mas vem de mansinho, como se estivesse cansada, abraça os restos do azul que ficou do dia, dobra-se como quem faz uma vénia ao dia. Boa noite!

 

Chá de violetas (4)

Robinson Kanes

03.05.20, Alice Alfazema

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O dia hoje está tão quente que vamos beber o chá com violetas com umas pedrinhas de gelo. Este calor faz-me lembrar mergulhos e caminhadas à beira-mar, o cheiro a maresia no ar, gaivotas rasando as ondas e a fazerem inveja aos que as olham e queriam também eles ganhar asas. Assim, mesmo sem asas, hoje tenho aqui na minha sala, paisagens que muito amo, e das quais tenho imensas saudades, só me faltam os cheiros, porque em palavras o Robinson, descreveu-as com o requinte de um viajante experiente e observador, apelando deste modo à nossa vontade de ir e conhecer mais e mais, esses recantos que para mim são mágicos, singulares e encantadores, e que todos os que puderam ver, talvez partilhem também as mesmas emoções, quando se elevam neste pedaço de barro vermelho que é depois engalanado pela nossa Mãe Natureza. 

 

 

 

 

My Dear Arrábida
 
 
 
 
 
Quando só há gaivotas e solidão, é que a Arrábida se revela, se entrega inteirinha.
Sebastião da Gama, in "Diário"
 

 

 

 

Existe um pequeno cantinho, naquele que é talvez o mais diversificado distrito do país. Um cantinho que nos transporta para um mundo novo e completamente diferente. Passadas as colinas da Serra do Louro ou da Serra do Risco, ergue-se uma paisagem abençoada pelos deuses, a Serra da Arrábida.

 

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Sebastião da Gama terá sido o grande poeta que foi, muito por culpa dos ares que se respiram daquelas terras. A pé ou de bicicleta, ou simplesmente estático a apanhar sol, a sentir a água do Atlântico, que ali tem uma cor especial, ou até, bem lá em cima, no Miradouro do Norte, a receber o ar marítimo - mil e uma histórias se cruzam e onde a Terra, não só a Humanidade, conta a sua longa história.

 

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A cor da terra nas botas ou nas rodas da bicicleta - vens da Arrábida, com os pneus assim - mostram que chegámos de uma outra dimensão. Que percorremos vinhedos, que andámos por densos matagais, pelo alcatrão quente de Verão e por alguns dos mais belos trilhos do mundo. Em cada curva, em cada elevação encontramos os frutos da terra, que não se resumem às tão apreciadas uvas, mas também a um sem número de cultivos, um sem número de aves e bichos rasteiros, um sem número de casas apalaçadas, belíssimas paisagens e até alguns dos mais belos cães de raça "Serra da Estrela", quem diria...

 

Entre Palmela e Setúbal, entre Azeitão e Sesimbra, parar para um queijo, para uma torta e um chá, para um inesquecível roxo - um dia é pouco para se dizer que se conhece aquele mundo. Dúvidas? Peguem em tudo isso, invadam a Bataria do Outão e sentem-se em cima do mar... Coloquem a toalha junto de uma peça de artilharia de costa e deixem que a natureza e as iguarias da região façam o resto. Desçam e subam, parem para mergulhar...

 

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A Arrábida é mais que o passeio pelo seu alcatrão, é ir serra e mato adentro, é chegar sujo, cansado e acima de tudo, então aí sim, terminar com um peixe bem grelhado no Portinho ou mesmo em Setúbal, com uma mesa e tudo aquilo a que temos direito. 

 

Deixemos que "Serra-Mãe", do grande poeta com apelido de navegador, nos embale nestas aventuras... Para isso, sentemo-nos no caminho dos moinhos, já na Serra do Louro, e fechemos os olhos... Vamos escutar as palavras, vamos ouvir os rebanhos e os uivos do vento do Atlântico, que atravessam o Sado e entre os encontros com a serra chegam ao Tejo, bem visível lá ao longe.

 

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Deixemo-nos embalar e quando as luzes do Castelo adornarem a paisagem nocturna de Palmela, deixemos a serra para os seus habitantes nocturnos e encontremos uma renovada cidade de Setúbal e se, não queremos deixar as alturas, nada como um copo no Forte de São Filipe e aí teremos a cidade aos nossos pés e Tróia a chamar por nós, quiçá para o dia seguinte.

 

 

Obrigada Robinson, gostei muito deste passeio maravilhoso, num espaço que me é tão querido. 

 

 

Vizinho:

Não É Que Não Houvesse...

 

 

 

 

 

Diário dos meus pensamentos (44)

02.05.20, Alice Alfazema

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Eu não estou cansada destes dias, apenas não quero voltar a viver da forma como vivia antes deles. Não quero, já não me revejo, nem ambiciono. E isto é um desejo muito forte, que tenho de trabalhá-lo e de batalhar bastante para conseguir alcançá-lo. É um caminho que estou a percorrer há alguns anos, em que apesar de demonstrar ser essa a minha vontade, tenho tido sempre obstáculos que não consigo ultrapassar, alguns deles sei que existem, mas são de difícil comprovação. Redes invisíveis se propagam ao nosso redor, são obscuras, dúbias, que nos podem levar até a duvidarmos de nós próprios, são quase maquiavélicas, (não sei se não hei-de retirar o quase). Por vezes há a sensação que a força depende apenas de nós,  é mentira, depende também, e muito, do ambiente ao nosso redor. Da forma como os outros nos vêm como alvos a abater, ou de como somos coisas inúteis, apesar de demonstrarmos inúmeras vezes o contrário. Neste tempo, tenho avaliado a causa do meu descontentamento e cheguei à verificação que isso se deve em grande parte ao ambiente em que estou inserida, não por uma imposição definitiva, mas antes num dever de o frequentar todos os dias. Não sei ser indiferente. Quero sair desta vida fazendo a diferença, sentir-me útil a maior parte  dos dias,  e se esse espaço me está a ser vedado tenho de ir em busca dele num outro lado.

 

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A reflexão pode ser dolorosa, a acção ainda mais, mexer naquilo que queremos acabar, exige fazer um desprendimento emocional com todos os sentimentos que adquirimos ao longo dos anos, talvez seja como fazer uma viagem deixando a bagagem no ponto de começo, neste caso recomeço. Qualquer dia é um dia bom, não precisa ser quarta, nem domingo, pode ser um outro dia qualquer, o que me importa verdadeiramente é que esse dia chegue depressa. 

 

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As ilustrações são de  Martina Heiduczek

O Pássaro da Cabeça

02.05.20, Alice Alfazema

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Ilustração Ira Khvan

 

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça,
que canta na tua garganta,
que canta onde lhe apeteça.

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
(mesmo as que julgas que não).

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada.

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

 

 

Poema de Manuel António Pina, in O Pássaro da Cabeça