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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Almareada

31.05.20, Alice Alfazema

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Ilustração Mic Salvagno

 

E eu que tantas vezes tive a oportunidade de comer e não comi, porque dizia que não gostava, fiquei agora a salivar por lembranças, mas também por sabores, quem sabe não vá passar a gostar.

 

Ontem comi berbigão da praça. Guardei-lhe o caldo, seus sucos misturados com cebola picada, alho, coentros e azeite. Nesse caldo, cairá, logo mais, o carolo de milho, que farei por almarear* de tanto o mexer com a colher de pau, contrariado-lhe as bolhas e os salpicos que vai querer soltar enquanto coze. Umas pequenas gambas hão de cair nas papas ao final da cozedura. A anteceder o prato de xerém, terei aberto, de novo com alho e coentros, as conquilhas que apanhei hoje de manhã, pela maré.
 
*deixar tonto
 
 

Loucuras

31.05.20, Alice Alfazema

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Ilustração Mirjam Siim 

 

 

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

 

Poema de Miguel Torga

A primeira metade de 2020

20/20

28.05.20, Alice Alfazema

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Ilustração Virginie Cognet

 

Lembro-me de no principio do ano ter dividido o ano em 20/20. 20/20, são duas metades aparentemente iguais, brevemente esta metade estará completa, o tempo voa, apesar de termos dito que os dias pareciam todos iguais, e o tempo os levou, da mesma forma que leva os dias diferentes, o tempo que rodopia a cada ano, e há quem diga que depois de uma certa idade ainda passa mais rápido, não sei se será verdade. 

 

No entanto, sabemos que estas duas metades são muito diferentes, na segunda jamais seremos os mesmos da primeira, mesmo que os dias voltem a parecer iguais, nunca voltaremos a ser quem éramos, foi como se saltássemos para um futuro inventado, onde fomos obrigados a viver sentimentos que não queríamos, a ver imagens que duvidámos, onde a miséria surgiu, emergindo devagar como uma borbulha que estava camuflada com maquilhagem. A tomada de consciência. 

 

E os pássaros cantaram, e fizeram os seus ninhos descontraídos, e os peixes exploraram outras águas, as plantas cresceram coloridas, muitos outros animais puderam explorar outros locais, enquanto estávamos com os nossos dias iguais. Ficou provado que podemos mudar, que nada é impossível, ficou provado que a imaginação é o melhor aliado dos dias iguais, e que as Artes são  disciplinas nobres, mesmo que voltem a dizer o contrário. Ficou provado que não se muda a forma de como exploramos o planeta, nem a forma de conviver com todos os seres que nele habitam porque não queremos! Ficou provado que é possível viver bem com pouco e sermos solidários com o próximo e nos surpreendermos a cada dia que é isso o que realmente importa. 

 

Enquanto o tempo voava e os dias pareciam todos iguais, vimos aquilo que nos trouxe maior alegria, mas também sentimos na pele a dificuldade do que é estarmos presos, mesmo sem guerra, vivemos um terror invisível, o medo da incerteza da nossa própria vida, aquele medo que deveria de ser erradicado de todos os povos. Fazer, ter e crer num mundo melhor no entanto ainda continua a ser motivo de achincalhamento por muitos, a necessidade de explorar para ganhar mais e mais é ainda, o lado mais curto para o sucesso, sucesso esse que é aplaudido em larga maioria. Enquanto esse sucesso continuar a ser o exemplo mais escolhido para aplaudirmos o modo de sociedade que queremos vamos continuar a ter os dias sempre iguais, o tempo sempre a voar, e a miséria a explodir em todas as direcções.  

 

 

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