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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Diário dos meus pensamentos (12)

Às tiras

31.03.20, Alice Alfazema

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Todos os dias faço um bocadinho da manta, no entanto houve um percalço, na primeira carreira coloquei tantas malhas que a manta ficou enorme, desmanchei o que tinha feito, reduzi e ajustei na medida que queria. Este trabalho leva-me para outros pensamentos, tenho muitos restos de lãs e desmanchei dois cachecóis que já não uso, para reciclar a lã, no meio disto tudo estão pessoas, a camisola que fiz para o meu filho, o xaile da minha filha e da minha sobrinha, a camisola e o cachecol da minha cunhada, a manta da minha madrinha de casamento e a manta do neto dela, o casaquinho do neto da minha colega, a manta de bebé de outra colega e de outra, o cachecol  da namorada do meu filho, coisas minhas e dos outros, tantas que já nem sei bem.  Tiras de cores, tiras de amores, lembranças agora mudas e separadas, mas que o tempo há-de juntar.

 

 

(roubei o coração à equipa do SAPOBLOGS, obrigada pelos corações)

 

Diário dos meus pensamentos (11)

Bandeira Nacional

30.03.20, Alice Alfazema

Na sexta-feira passada hasteei a bandeira na escola, hoje tivemos de a recolher. É sempre o mesmo hasteamos  a bandeira à sexta e recolhemos à segunda. O  mastro é muito alto. Parece um mastro de um navio. A bandeira dá-lhe um ar elegante. Sem ela fica sem vida. E se este fosse um tempo de estar sempre hasteada, tal como um barco que navega para bom porto? 

Diário dos meus pensamentos (10)

Favas

29.03.20, Alice Alfazema

Hoje fiz favas para o almoço com carapaus pequeninos fritos, dei graças aos homens e  às mulheres que me permitiram comer estas iguarias, também às plantas e aos peixes, é assim que gosto de fazer as minhas orações - em pensamentos, trauteie a música Resistiré da banda Dúo Dinámico, enquanto descascava as favas e lembrei-me de um episódio perdido no tempo, num tempo em que ainda não tinha filhos, mas que já morava com o meu marido e trabalhava numa fábrica longe de casa. Ora um certo dia sou chamada ao escritório da chefe da fábrica, o que poderia ser? Vou lá e eis que ela me diz que tenho uma chamada telefónica, naquele tempo não tínhamos telemóvel, fiquei surpreendida e apreensiva ao mesmo tempo. Peguei no telefone enquanto a senhora olhava para mim, e eis que do outro lado a minha mãe diz-me - Olha, fiz favas, querem vir cá jantar? - Tentei dar uma resposta afirmativa, mas de maneira que a chefe não entendesse aquilo que tinha acabado de ouvir. Agradeci à senhora por me ter chamado e saí como quem anda nas nuvens. Por isso quando descasco favas, e por mais que o tempo passe hei-de recordar em mim este momento.

 

E é nestas recordações que tenho buscado forças para ultrapassar estes dias de clausura, e na comida de conforto que dou aos meus. Comecei a ler um livro que me deram no Natal, alguém se lembrou que eu tinha dito que o gostaria de ler e ofereceu-mo, ainda não tinha tido coragem para lê-lo, este é o tempo, é um livro duro, real, onde as minhas memórias de infância se misturam com os relatos daquelas mulheres.

 

A História é como o fogo. Quando se está em cima dela arde e dói. Só quando  vendaval amaina se consegue tocar-lhe. A distância é-lhe necessária, quando a chama da paixão se transmutou já em qualquer outra coisa que não sei bem o que é. Talvez memória.

 

Alice Brito, in As Mulheres da Fonte Nova

 

A Fonte Nova é largo num bairro antigo de Setúbal - o Bairro de Troino, a história relata a época 1930 a 1960 onde moravam muitas mulheres que trabalhavam na industria conserveira, retrata a vida e as emoções desta gente explorada por patrões sem escrúpulos, a violência doméstica, a fome e a pobreza. São histórias comuns de um passado não muito distante onde as oportunidades de vida eram segregadas pela sua condição social. 

 

 

Dez anos de blog

Alice Alfazema

28.03.20, Alice Alfazema

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Hoje recebi este ramo apanhado num quintal onde passei momentos muito felizes, vai servir de adorno para o aniversário do blog. Dez anos é muito tempo...foi tempo de partilhar, foi tempo de rir e de brincar, de usar o sarcasmo, e de viver muitas outras emoções. Obrigada por estarem desse lado e sejam sempre bem-vindos a este ponto de encontro.

 

 

 

 

 

 

 

 

Diário dos meus pensamentos (9)

Sábado

28.03.20, Alice Alfazema

Acordo com o Sol a bater-me na cara, aquela luz reflecte-se no espelho e produz um clarão de luz amarela. Penso mais uma vez se tudo isto é um pesadelo? Forço-me então a lembrar as informações do dia anterior, sim é verdade. 

 

Volto à mesma rotina, a minha filha diz-me que estou mais social, é verdade, vou mais vezes às redes sociais, partilho imensa informação, até faço parte de um grupo que partilha informação. Porquê? Porque aflige-me a partilha de notícias sem estarem devidamente credibilizadas, actualizadas e que não sejam de interesse público. 

 

Faço-o porque quero senti-me útil de alguma forma, dar um sentido aos dias. Porque para além da Liberdade a Informação é um dos bens mais preciosos que podemos ter. Temos hoje ao nosso alcance esta poderosa ferramenta, devemos usá-la devidamente e com sentido crítico, partilhar não para alertar, no sentido de terror, mas na sua forma de conhecimento e de saber como obter formas de como agir. 

 

Sinto que há uma grande onda de solidariedade, o Papa Francisco rezou sozinho naquela imensa praça, ele diz que estamos todos no mesmo barco e que ninguém vence isto sozinho, é uma verdade, as pessoas estão a unir-se de uma forma construtiva, e mesmo à distância criam-se laços de empatia, claro que haverá sempre gente estúpida, mas desde que essas não ultrapassem em número as que se esforçam temos mais hipóteses de nos reinventarmos.

 

De alguma forma a mudança é sempre dolorosa, vai ser difícil sairmos deste pesadelo, lembremo-nos então que em outras épocas muitas outras desgraças foram ultrapassadas, estávamos habituados à rotina, a ter como garantido, a não saber dar valor, é hora de começar a interiorizar outras normas e outros futuros. 

 

Conversas da escola - 27 de Março de 2020

28.03.20, Alice Alfazema

Hoje a escola estava vazia, os alunos estão em casa de quarentena, muitos têm aulas virtuais, outros por e-mail, e há os que não têm nada disso, ou porque não têm Internet, ou porque os pais não têm capacidade para os orientar. No entanto, a escola física permanece viva, cheia de bichos, eu diria até que está entregue a eles, é uma pausa que provavelmente trará mais desigualdades sociais, poderá no entanto aumentar a solidariedade, mas apenas se as pessoas mudarem de atitude, porque se continuarem elitistas tudo isto terá sido em vão. É bom que não se esqueçam rapidamente, e que fique para a História, e  que seja estudado em Psicologia e em Sociologia, tal como em Antropologia e Ciência Política, e nas mais variadas Ciências Sociais, para que em conjunto se reflicta e valorize a diversidade da vida humana, as suas consequências e os modos de como podemos ultrapassar questões que dizem respeito a todos. 

 

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A borboleta transforma-se num processo de confinamento ao casulo, através dele alcança o voo, mesmo que seja rápido é uma experiência que lhe confere chegar até onde nunca tinha ido. 

 

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A fruta adoça presa na árvore e esta presa na terra dá o seu fruto a quem anda por aí, como prova de carinho por quem lhe espalha as sementes, é vida multiplicando-se.

 

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A flor concede aos polinizadores o seu pólen e dá-nos ainda uma paleta de cores que nos brindam nesta Primavera, dando-nos ânimo, para que possamos entender que a saudade é uma palavra que agora pertence a todos.  

 

(estas fotografias foram tiradas por mim na escola durante este dia)

 

 

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