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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A vida

29 de Fevereiro de 2020

29.02.20, Alice Alfazema

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A vida é assim: frágil, fugaz, vibrante. Hoje estamos aqui, amanhã não sabemos. Mas terá a vida algum valor especial e único se não a sintonizarmos com a natureza? Se não formos solidários e empáticos com os nossos semelhantes?

 

A vida tornou-se tão desinteressante enquanto comemos regalados em frente ao ecrã vendo notícias de guerra e imagens de refugiados, quando somos autoritários perante outros por os julgarmos pelo que vemos, como se essa pele fosse o único indicador daquilo que temos à nossa frente.

 

Que sabes tu de mim? Do que leio e daquilo que penso? Do que já vivi e das escolhas que tive de fazer? Nada. E do nada tiras conclusões. 

 

Hoje é um dia diferente, daqui a quatro anos haverá outro, é um dia que vivemos de quatro em quatro anos, é um resto, uma nova oportunidade, um novo amanhecer, mais uma noite, mais uma espera. É a vida que se movimenta esperando por mudanças.

 

Deixei de ter paciência, deixei de tentar compreender a estupidez da altivez, não quero desculpar mais o preconceito exercido por pessoas adultas e supostamente informadas e formadas. Quero pertencer e poder alcançar outros patamares de inteligência, que não estejam estratificados pela sociedade e pelas classes. Quero algo natural, tal como uma papoila que apenas dura um dia, mas que esse dia seja vibrante e não extenuante. Quero poder sentir prazer a cada dia, naquilo que faço, naquilo que sinto e naquilo que é a minha opinião. 

 

 

Técnica

Hoje já ouviram um pássaro a cantar?

23.02.20, Alice Alfazema

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Desenvolvi a técnica dos pássaros. Fico ou parto quando é
mais conveniente. Não dialogo. Canto. E o meu canto é como
o canto do gaio ou do melro, da narceja ou do tentilhão: um
canto para mim, um canto para todos, um canto para ninguém.

 

 

 

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Quem o ouvir o julgará, se o entender, e se entender que o
deve julgar. Algumas das vezes esse canto é feito de silêncio.
Um silêncio harmonioso, lúcido, eficaz. Quando um pássaro
se cala, nunca o faz por acaso, fá-lo por necessidade e por
estratégia. O silêncio é de ouro quando o canto é mortal. O
silêncio é para o pássaro como a jangada para o náufrago.

 

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Quer dizer sobrevivência. É também por isso que digo ter
desenvolvido a técnica dos pássaros. Cantar para dentro, nas
paisagens da alma, sobre os mais altos ramos da solidão, é às
vezes coisa boa e coisa delicada. E assim, escuto esse canto
de mim, essa forma de construir momentos de felicidade como
se constrói um ninho, imprescidível mas por pouco tempo. O
necessário apenas para ensinar a voar os pensamentos.

 

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Poema Joaquim Pessoa, in Ano Comum

 

 

As ilustrações são de David Allen Sibley e foram retiradas de Audubon, Guide to North American Birds, aproveitem e oiçam o canto de cada um destes pássaros, para isso basta clicarem no link.

 

Simplicidade

21.02.20, Alice Alfazema

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Ilustração Jungho Lee

 

 

alguém devia separar a inquietação do tempo
ouvir os cânticos não humanos da terra
serenata de peito aberto

aceito o abrandamento da respiração
e o vento protector engrandece a ideia de raiz

a simplicidade chama-se pedra-folhagem-animal e voa
a verdade tem nome de pássaro azul com alma

tu e eu em prece murmurada de escuta
tu e eu e as primeiras águas
tu e eu em construção
ainda que não haja tempo
para edificar a árvore do mundo

 

 

Poema Adília César

Onde fica a fissura?

20.02.20, Alice Alfazema

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Fotografia Artur Pastor

 

 

 

Sempre vivemos para além
da memória
apesar do lapso apunhalando o tempo

Porque antes fomos
connosco noutra hora, e agora
voltamos quando já nos esquecemos

Onde fica a fissura, a brecha
por onde passámos
a chegarmos de novo ao nosso presente

Infringindo as regras das horas
improváveis
hoje igual a ontem, já inexistente

Partimos e tornamos na nossa
eternidade
assim a repeti-la num infindo repente

Perdidos um do outro sempre
a regressarmos, revertendo
a queda que nos ata e desprende

Onde está o estilete de cravar
no peito, onde está
o incêndio, onde está o veneno?

Tanta imprudência que jamais
revelamos, calando
um ao outro aquilo que queremos

Fugaz a madrugada volta a luzir
no espaço, entre o prazer
aceso e o lento segredo

Efémeros os sentimentos
que depois se refazem
como se dissolvem as paixões ardentes

Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos

 

 

Poema Maria Teresa Horta

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