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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Somatório

31.01.20, Alice Alfazema

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Há momentos da nossa vida em que nos questionamos sobre tudo. E em que as respostas parecem não existir ou pelo menos que nos satisfaçam, como se as respostas se direccionassem para outras perguntas, coisas das quais não queremos saber. É um questionário cíclico a que toda a gente se submete de livre vontade ou não.

 

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Não queremos saber dos somatórios, numa aversão cega da verdade ou da conclusão. Empurra-se com a barriga o que se leva nas mãos ou na cabeça. Demasiado para alguns, leve para outros, desprezível para uns tantos.

 

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Dá-se passos sigilosos, mansos e obedientes, onde se buscam compensações, por sermos subservientes. Como mulas carregadas de carga que relincham apenas sós e na noite, sem testemunhas que levem a mensagem da sua revolta e da sua desilusão.

 

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Mantêm-se os sorrisos interesseiros, na esperança do final de contas, mas a conta nunca acaba, naquele livro de capa preta e riscado a lápis, onde a qualquer hora podem alterar-nos a soma. Entretanto fazem-se favores, como meios de troca, outrora eram búzios e conchas brilhantes, hoje podem ser boatos, conversas ouvidas, um botão velho, um caco de espelho. 

 

 

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Guardam-se então os livros das somas para as ocasiões especiais, afiam-se os lápis para poderem estar sempre prontos, mas não há estojo, nem prateleira. Nada pode ficar à vista, é tudo superficial, para que se esfume a qualquer momento, sem provas, sem culpa, sem nada de que se possa falar.

 

 

 

Ilustrações Paul Jones

 

Mulheres

28.01.20, Alice Alfazema

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Ilustração Catrin Welz-Stein

 

 

Há mulheres que trazem o vento no corpo. Irmãs das
tempestades, são cúmplices dos seus próprios naufrágios.
Ficam suspensas nos seus dedos de água quando é suave
a sua ancoragem.
À noite repousam exaustas. Procuram nas margens dos rios e
no emaranhado dos bosques um lugar onde remansear
a tortura das ondas que as assolaram.
A almofada sabe-lhes a nuvem, a novelos leves de algodão
onde submergem a face e sorriem ao sono.
Acordam com a aparição cintilante e trémula da primeira
centelha de sol. Esbracejam. Deixam rolar uma pequena
e redonda lágrima de orvalho que lhes ficou no rosto.
Todas as manhãs, a água das suas mãos limpa as pétalas
das flores gigantes da noite que as acolheram.
E voltam, saias revoltas nos ares do dia. Bebem o mel
dos frutos, revolteiam as pernas nos troncos das árvores
silvestres e entram nos barcos como se fossem de papel.

 

 

Poema Lília Tavares,  in Bailarinas de corda

Outra forma de orar

💋

25.01.20, Alice Alfazema

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Quero escrever até ao fim do mundo.

Uma escrita torta pelas linhas que se endireitam ao seu passar.

Não se escreve até que a alma nos doa no dedilhar de uma guitarra. Escreve-se até que a voz nos falte no estremecer de um fado que nunca será de saudade.

Que as almas não doem quando se escreve.

Oram.

 

Miss X

 

 

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