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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Meu rio, meu mar

30.11.19, Alice Alfazema

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Minha cidade
Meu rio
Meu mar

 

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Pôr-do-sol de cores imperiais
Cheiros de maresia
Cheiros de areia fresca das cadeias do mar
Areia de beijinhos perdidos ao relento

 

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Meu mar
Belos momentos a esquecer tormentos
E o sol a queimar
E o sol a sorrir de sonhos saudosos

 

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Deitados no mar com rendados de luz
Que o sol emprestou

 

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Minha cidade
De rio e de mar
Riqueza assim
É inveja sem fim.

 

 

 

Carmen Dessa, in Em mim e em outros lugares

 

 

Alicinha Contina hoje não foi à escola!

29.11.19, Alice Alfazema

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Alicinha Contina hoje não foi à escola, é sexta-feira e aproveitou a greve do pessoal não docente para fazer um fim-de-semana grande e como é dia de  Black Friday, vai aproveitar e gastar o seu salário mínimo em grandes compras, procura essencialmente um abafador de som, comprimidos para as dores ou pomadas, ou até consultas de fisioterapia ou afins em pacotes de desconto. 

 

 

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A Alicinha tem um emprego para a vida, com um aumento salarial também para a vida, porque a Alicinha só será aumentada perto da reforma, isto se chegar lá. Alicinha lavará sanitas de andarilho, e deixará os meninos andarem uma voltinha na sua  Stannah Mini, claro que a Alicinha não se sente explorada quando ganha uma miséria, afinal limpar não custa nada, qualquer um pode fazê-lo.

 

 

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O trabalho da Alicinha é rotineiro, passa o dia a abrir carcaças e a por fiambre no pão, a gritar com os meninos e a lavar o chão. Só trabalha 35 horas semanais, afinal o que ela quer mais!? Pastilhas para a tosse. 

 

 

 

Amigo

24.11.19, Alice Alfazema

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Ilustração Catrin Welz-Stein

 

 

“Amigo”
não é a pessoa com quem falamos
ou bebemos uns copos
e até rimos às vezes…
“amigo”
é quem nos ouve,
quem nos sente
“amigo”
é aquele que voa connosco
mas nunca se esquece do lastro que nos prende à terra,
que nos prende a nós.
“amigo”
é uma pessoa cara numa palavra vendida ao desbarato

 

 

 

Poema de Sara, do blogue: Sarin - nem lixívia nem limonada

Coisas do nosso tempo - Ser Polícia em Portugal

24.11.19, Alice Alfazema

«Sou polícia há 17 anos.

Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900 euros, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100 euros e a farda ainda valia alguma coisa. Raramente era ofendido e, quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.

Dezasseis anos depois, trago para casa 1080 euros. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180 euros do meu rendimento. Dezasseis anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, Natal, ano novo, directas em cima de directas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.

Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789 euros. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher, e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super-inflacionado.

O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso directo à base de dados do IRN, não tem acesso à base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga, e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.

O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e três carregadores, mas não fornece porta-carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta-algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos.

Sou polícia e no ano passado gastei 700 euros em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento.

Há falta de equidade: em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600 euros.

Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com cinco louvores. O colega que me deu o curso foi promovido quatro vezes. Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba: 1400 euros de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica, o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito... e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.

Claro que há policias incompetentes... mas com cursos de sete meses querem o quê? James Bonds? Sete meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. Sete meses para aprender a reagir em segundos.

E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de cinco anos. E nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.

Por que não cursos de três anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais e permitir aos melhores chegarem lá acima?

Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.

Mais de 50% do efectivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.

Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos.

Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua, demora dez minutos.

Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro-patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro-patrulha mais perto. Aqui não: se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a dois minutos.

Num país deste tamanho existem duas forças idênticas. Absurdo.

Bater num polícia dá até cinco anos de prisão... nunca acontece e, se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.

Ser polícia é uma merda neste país.»

 

 

Texto retirado do blogue Delito de Opinião

 

 

 

Dança comigo

23.11.19, Alice Alfazema

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Dança comigo onde os violinos ardem, gemem e entoam, deixa-me dançar contigo
Sob um céu infinitamente estrelado, onde a lua com o seu brilho vem beijar o mar
Dança-me com a tua beleza, tua alma, tua existência e o teu ser… Oh! sim, dança comigo
Toca-me com a tua mão, deixa-me sentir a tua áurea os teus lábios, vem-me abraçar
 
 
 
 

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Dança comigo numa valsa eterna… sim inextinguível, como perpétuo é o nosso amor
Leva-me nos teus braços, encanta-me, embala-me em suaves e singulares compassos
Dança-me e deixa-me sentir o cheiro perfumado e balsâmico da tua pele, minha flor
Experimento cada passo e cada beijo teu como se fosse o último, leva-me nos teus braços
 
 
 

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Dança comigo, onde os violinos choram acordes celestiais e em harmonia entoam no ar
Onde a serra toca no céu e ambos se entrelaçam como dois amantes apaixonados
Toca-me com a tua mão desnuda, quero-a sentir a cada movimento teu com o teu olhar
 
 

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Dança comigo, sente a corda dos violinos, elas pulsam em campos doirados de trigo
Dança a minha alma e espírito em searas voltadas ao vento, em atos de amor confirmados
Dança o meu pânico de te perder, dança o meu desejo de te sentir… oh sim dança comigo!
 
 
 
 
Henrique Júnior, in O Canto dos Poetas
 

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