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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O estranho pensamento

22.10.19, Alice Alfazema

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Ilustração Osvaldo Herrera Graham

 

Aos 3 anos:
Ela olha para si mesma e vê uma rainha.

Aos 8 anos:
Ela olha para si e vê a Cinderela.

Aos 15 anos:
Ela olha e vê uma freira horrorosa.

Aos 20 anos:
Ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas, vai sofrendo.

Aos 30 anos:
Ela olha para si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo para consertar então vai sair assim mesmo.

Aos 40 anos:
Ela se olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa e sai mesmo assim.

Aos 50 anos:
Ela olha para si mesma e se vê como é. Sai e vai para onde ela bem entender.

Aos 60 anos:
Ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo.

 

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Aos 70 anos:
Ela olha para si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida.

Aos 80 anos:
Ela não se incomoda mais em se olhar. Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo.

Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo!

 

 

Texto de Erma Bombeck

Sopro

21.10.19, Alice Alfazema

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Ilustração  Magaly Ohika

 

Atente os seus ouvidos
Mais às coisas que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento,
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar
É o Sopro dos ancestrais

Os que faleceram jamais se foram
Eles estão na Sombra que se ilumina
E na sombra que se enegrece.
Os Mortos não estão sob a Terra
Eles estão na Árvore que freme,
Estão na Madeira que geme,
Estão na Água que dorme,
Estão na Cabana, estão na Massa
Os mortos não estão mortos.

Atente os seus ouvidos
Mais às coisas do que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento,
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar
É o Sopro dos ancestrais
Que jamais se foram
Que não estão sob a Terra
Que não estão mortos.

Os que faleceram jamais se foram:
Estão no Seio da Mulher,
No vagido da Criança
E na brasa que inflama.
Os Mortos não estão sob a Terra
Eles estão no Fogo que se apaga,
Estão nas Ervas que choram,
Estão na Rocha que range,
Estão na Floresta, na Cabana,
Os Mortos não estão mortos.

Atente os seus ouvidos
Mais às coisas do que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento,
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar
É o Sopro dos ancestrais

Todo dia ele refaz o Pacto
O grande Pacto que prende,
Que prende à Lei nosso Destino,
Aos Atos dos Sopros mais fortes
O Destino de nossos Mortos que não estão mortos,
O pesado pacto que nos liga à Vida,
A pesada Lei que nos ata aos Atos,
Dos Sopros que morrem
No leito e às margens do Rio,
Sopros que se movem
Na Rocha que range e na Erva que chora
Sopros que permanecem
Na sombra que ilumina e se enegrece,
Na Árvore que freme, na Madeira que geme
E na Água que corre e na água que dorme,
Sopros mais fortes que tomaram
O Sopro dos Mortos que não estão mortos,
Dos Mortos que não partiram,
Dos Mortos que não estão mais sob a Terra.



 

Poema de Birago Diop

Peixe frito e arroz de tomate

20.10.19, Alice Alfazema

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Num destes Sábados levantei-me cedo e fui beber um café à beira-rio, estive por ali enquanto me apeteceu e até caminhei pela praia, estava um dia de vento, com algumas nuvens, um frio ligeiro no ar, as gaivotas voavam em círculos, dando guinchos de vendaval. Elas sabem. Havia também pombos e outros pássaros abrigados nas rochas que pareciam esculpidas na falésia. As ondas rebentavam de mansinho na areia, um cheiro a maresia, e algas deixadas na praia. A Serra de um verde escuro ao longe com o céu cinzento por detrás.

 

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Saímos dali, já quentes pela caminhada e fomos à praça (Mercado do Livramento - Setúbal) ao peixe e aos legumes, quando entro ali é como se entrasse num templo, olho para aquele azulejo magnifico e lembro-me de quem ali se encostava, aquela azáfama dá-me uma energia renovada, as cores dos legumes e o cheiro a peixe transportam-me para outro tempo. Percorro então as bancadas do peixe para ver o que quero, claro que já sei onde vou comprar, mas tenho de manter este ritual, vejo um espadarte com quase quatrocentos quilos, pargos rosados, garopas, pregados, salmonetes, fanecas, lulas, chocos, carapaus, enxarroco...conheço todos, nada daquilo é novidade para mim, sei a que sabem, sei como os cozinhar, sei como se escama, sei quando é fresco. 

 

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Gosto de me passear por ali, de me esquivar aos salpicos do peixe a ser amanhado, finjo que não percebo que os vendedores fazem de propósito em dar uma traulitada mais forte para que aquilo espirre e molhe os que por ali andam só a tirar fotografias como se estivessem num museu ou num safari. Aquela é a vida real, onde as mãos se enrugam pela água, as escamam se colam à pele, e o cheiro do peixe se entranha nos poros. 

 

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Compro raia, digo que não é preciso separar as postas, o senhor agradece-me, quero também carapaus para alimar, trago dois sacos cheios. De seguida vamos aos legumes. Primeiro damos uma volta de reconhecimento, vemos o que se passa aqui e acolá, interiorizamos aquilo que vimos e vamos à descoberta dos preços e da frescura. 

 

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As bancadas dos legumes são sempre muito coloridas, há pilhas de legumes de vários tons de verde, outras vermelhas, pedaços de abóbora cor-de-laranja, castanhas, uvas... as pessoas fervilham em redor dos vendedores, as bancas estão cheias do que de melhor há na terra e de fruta da época, compro tomates, alho-francês, cebolas, batatas, coentros...

 

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Vamos então para casa, lavo e amanho os carapaus e deixo-os de molho em água limpa, para que fiquem limpos de sangue, mais tarde vou pô-los no sal de um dia para o outro, para que os possa alimar. Passo para a raia, que está toda ranhosa, lavo-a e arranjo as postas, deixo-a também em água, até vê-la completamente branca. Quando isso acontecer salgo-a. 

 

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Coloco então o óleo numa frigideira com alhos,  deixo aquecer até os alhos fervilharem, depois de salgada, passo a raia por farinha, depois por água e de seguida meto a fritar. Entretanto também faço o arroz de tomate, descasco o tomate, a cebola, alho, louro, um fio de azeite, deixo estar em lume brando até ver o tomate desfeito e com molho, junto água, espero que ferva, ponho especiarias e sal, acrescento o arroz e os coentros, vou virando o peixe e lembro-me que tenho de fotografar isto para por no blog.

 

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Tirei as fotografias à pressa, não gosto de comer o peixe frio, muito menos o arroz, que perde o caldo. A casa ficou a cheirar a peixe frito, eu gosto desse cheiro, para mim reporta-me à infância e a momentos felizes.

 

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Boa semana!