O tempo turva tudo o que somos...vivemos
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Gosto de gatos vadios, daquele olhar inconfundível de indiferença perante quem passa. Eu estou aqui, mas só me apanha quem eu quiser.
Quando eu era miúda tinha gatos, mas eram gatos hóspedes, iam a casa quando queriam e nem dormiam por lá, miavam bem alto quando lhes apetecia e participavam em grandes lutas com os gatos dos vizinhos.

Quase todos os nossos vizinhos tinham gatos, não me lembro de cães. Os gatos não eram vacinados e muitas vezes nem tinham nome. Os gatos da minha avó chamavam-se - Pirolito, os da minha mãe eram pretos e tinham o nome de Chibanga, em homenagem ao toureiro Ricardo Chibanga e de quem ela tanto gostava de ver tourear um belo touro. Era tudo muito simples, eu nunca opinei sobre os nomes dos gatos, nem tal me passava pela cabeça.

Havia dias em que os gatos não apareciam lá por casa, a mim fazia-me aflição, mas a minha avó dizia-me: foram às gatas. Porque os nossos gatos eram só machos. Em dias de lua cheia haviam lutas tenebrosas, miados gritados a plenos pulmões, garras afiadas cruzavam os céus e desferiam golpes profundos. Por vezes ficava a pensar nos meus gatos e de como viriam. Passados dias apareciam, magros e sujos, orelhas ratadas e arranhões por cicatrizar. A minha mãe pegava neles e curava-os, qual enfermeira dedicada, só comiam depois do tratamento, e eles compreendiam.

Os meus gatos eram gatos piratas, que voltavam ao seu porto de abrigo quando queriam e quando podiam, ninguém lhes exigia nada, bem talvez uma festa.

Ilustração Roshi Rouzbehan
Nos idos anos 80, eu tinha uma vizinha que estava sempre zangada com o mundo, era com os vizinhos, era com os moços que faziam barulho, era com a mulher que atendia pessoas para resolver problemas espirituais, enfim andava sempre num frenesim de nervos.
Ela era baixinha e usava o cabelo muito curto, havia alturas em que o marido, instruído por ela vinha dar um berro aos moços que andavam por ali na galhofa. A malta fazia de propósito só para os arreliar, às tantas o homem desistia, mas ela continuava, por vezes lá vinha um balde com água, nesses tempos haviam assuntos que se resolviam com água fresca e sem avisos. As mães nunca tomavam as dores dos filhos, sabiam que eles às vezes abusavam.
Um dia o meu irmão e os outros resolveram pregar-lhe um susto: fizeram um refogado com tomate e cebola, juntaram outras mistelas e meteram aquilo em cima do tapete da mulher, pegaram num carvão e escreveram no muro em frente à porta: vade retro a Satanás. Coisas que os moços ouviam dizer, vindo lá daquela casa, onde haviam sempre pessoas à porta. Eram gritos todo o santo dia, ecoavam pela rua e os moços divertiam-se.
A mulher veio perguntar à minha mãe se tinha visto alguém por ali, ela nada sabia, eu também não, ninguém se lembrou dos moços. O tapete foi deitado fora com muito cuidado para não mexer naquilo, não sei com que água retiraram as letras gravadas a carvão, mas sei que a mulher que odiava a outra, aquela que atendia pessoas, começou a ter mais uma freguesa. A mulher começou a desconfiar de tudo e de todos, retirou os vasos que tinha à porta de casa e deixou de refilar com os moços, a rua perdeu a graça e já não se ouviam gargalhadas.
Aquela mulher altiva e rebitesa passou a andar de cabeça baixa, talvez com medo, acreditando numa mentira que se instalou na sua mente, instigada por outros a crer que alguém lhe queria mal, provavelmente a associar situações de vida com maus-olhados e outros credos. Deixou de ser quem era e passou a ser um fantoche.

Ilustração Roshi Rouzbehani
Boa semana a todos os que passam por aqui. ![]()

Ilustração Erin Robinson
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Ilustração Eva Vázquez

Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo
não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas
terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte.
Agostinho da Silva, 1989