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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Não  tem obrigatoriamente de dizer tudo

17.08.19, Alice Alfazema

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Às vezes, um verso transforma o modo como 
se olha para o mundo; as coisas revelam-se 
naquilo que imaginação alguma a supôs; e 
o centro desloca-se de onde estava, desde 
a origem, obrigando o pensamento a rodar 
noutra direcção.

 

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O poema, no entanto, não 
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua 
essência reside no fragmento de um absoluto 
que algum deus levou consigo.
Olho para 
esse vestígio da totalidade sem ver mais 
do que isso — o desperdício da antiga 
perfeição — e deixo para trás o caminho 
da ideia, a ambição teológica, o sonho do 
infinito.

 

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De que eternidade me esqueço, 
então, no fundo da estrofe?

 

 

 

Poema de Nuno Júdice, in O Movimento do Mundo, 1996

 

As ilustrações são de Jon Krause

 

💋 - Tarte Tatin

17.08.19, Alice Alfazema

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Estive durante a tarde a ver o canal 24 Kitchen,  e eis que me surpreendi e fiquei fã deste Chefe, Francisco Moreira, é dinâmico, apresenta as receitas com uma simplicidade e partilha que nos dá vontade de querer ver mais e mais, não só pelas receitas originais e criativas, mas pelo seu à vontade e pela ausência de floreados enquanto nos explica qual o porquê da massa ficar mais leve e fofa. Deixo-vos um vídeo da Tarte que já tentei fazer, mas que nunca consegui que ficasse perfeita tal como ele o fez, num destes dias irei experimentar esta maravilha feita desta maneira. Vou deixar aqui a receita, porque se a ponho noutro lado provavelmente me esquecerei. :-)

 

 

Para a Tarte Tatin

- 200g Massa folhada

- Açúcar em pó q.b.

- 225g Açúcar

- 50g Manteiga sem sal

- 3g Flor de sal

- 9un Maçãs Pink Lady

- Manteiga sem sal q.b.

- Açúcar q.b. Para o Molho de baunilha

- 125g Leite meio-gordo

- 125g Natas 35% gordura

- 1un Vagem de baunilha

- 40g Açúcar

- 3 gemas de um ovo S

 Confecção:

1) Caramelize 150g de açúcar. Junte 50g de manteiga sem sal e coloque-o na base de uma forma. Disponha 9 maçãs pink lady, sem casca nem caroço, por cima do caramelo.

2) Coloque nozes de manteiga sem sal e açúcar por cima das maçãs. Leve ao forno a 180º durante 45 minutos.

3) Numa folha de papel vegetal, estenda 200g de massa folhada e pique-a. Coloque outra folha de papel vegetal por cima e leve ao forno a cozer entre 2 tabuleiros, a 180º, durante 12 minutos.

4) Retire do forno, polvilhe com açúcar em pó e leve novamente ao forno a 210º até caramelizar.

5) Prense as maçãs e deixe arrefecer.

6) Para o molho de baunilha, leve um tacho ao lume com natas, leite e 1 vagem de baunilha aberta. Deixe ferver. 7) Retire a vagem de baunilha.

8) Misture 3 gemas com 40g de açúcar e tempere com o molho. Devolva ao tacho e coza até engrossar, ou até atingir os 82º.

9) Para desenformar a tarte, aqueça a forma da tarte no fogão, e coloque-a por cima da massa folhada.

10) Sirva a tarte com o molho de baunilha.

 

 

A fotografia foi retirada daqui, cliquem e poderão saber mais sobre o Chefe Francisco e os seu "Doces do Ofício".

Olha a bolinha!

17.08.19, Alice Alfazema

O homem das bolinhas de Berlim caminha sem cessar pela praia, gritando sem se cansar: olha a bolinha!.  Percorre a areia dourada e quente, e na pele traz um bronzeado de fazer inveja, tem músculos de quem pratica caminhada, na cara um sorriso de quem quer cativar. As crianças adoram-no, como se fosse um palhaço num circo de praia. Na água os peixes brincam às escondidas. 

Escuridão luminosa

15.08.19, Alice Alfazema

Estamos numa espécie de Idade Média do tempos modernos, agora as pessoas têm informação, muita informação, mas não a utilizam de forma correcta, propagam-se então as notícias que têm anos como se fossem novidades, a fonte da notícia não é tida em conta. Há assim uns locais onde o povo se ajunta e grita, mas agora são gritos escritos, nada de atirar tomates e verduras podres, agora são os comentários de ódio, sem fundamentação. Depois uns riem, outros aplaudem, tal como na forca, poucos se importam com o que se passa, apenas querem ver o espectáculo. Chamam-se redes sociais, mas poderiam chamar-se  pátios, caminhos, veredas, varandas, baldios...

 

Na Idade Média os Homens da Ciência eram visto como loucos, agora são os activistas ambientais, são descredibilizados, torturados, mortos, ridicularizados. Nesta era aceita-se o casamento entre o mesmo sexo, proclama-se a inclusão, faz-se voluntariado nos mais diversos países, a escolaridade nunca foi tão intensa, presume-se que a sabedoria também. No entanto, vivemos dias negros,  assistimos à extinção de muitos animais selvagens como quem come pipocas. Vemos incêndios na floresta como quem vê um filme de drama. Assistimos a podas radicais das grandes árvores feitas por equipas especializadas. Olhamos e deixamos que as árvores sejam arbustos. Quem reclamar é um louco. 

 

A cada dia que passa o nosso mundo vai perdendo a biodiversidade. Arrasam-se as florestas, estrangula-se a Amazónia e os seus habitantes, comem-se peras abacates nas saladas fit sem saber de onde vieram. Em Portugal planeia-se construir um aeroporto num estuário e um super porto de cargas e descargas num rio onde há uma reserva e um parque natural e uma imensa fauna marítima. Este é o futuro.  Quem se impuser a ele é louco. 

 

Não há nobres nem feudos, nem cavaleiros de armadura, nem cascos a bater nos caminhos. Mas há uma escuridão luminosa em cada ecrã. Há uma ânsia pelos boatos e pela coscuvilhice. Há um desespero pela aparência. Não há pensamento para as gerações futuras. Há um monte de gente a prostituir-se pelo momento. São falas mansas, são conversas demoradas e repetitivas, sem conteúdo, que cativam quem nada quer saber.

 

Os loucos são os que se importam. 

 

 

#diariodagratidao 15-08-2019

15.08.19, Alice Alfazema

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Ilustração Yiting Lee

 

Já fazem muitos dias que não escrevo aqui no Diário da Gratidão, coisa com que me comprometi, mas  que não cumpri. Não considero um falhanço, mas um desvio de conduta, até porque estar grato é  muito mais do que afirmar que se fez isto ou aquilo num pedaço de papel ou num ecrã de computador, ter gratidão é colocarmo-nos no lugar do outro também com acções e momentos reais no dia-a-dia. É por aí que tenho andado. 

 

No entanto, quero agradecer a todos vocês que passam por aqui, que me escrevem palavras de carinho, motivando-me, levando-me para sorrisos rasgados. Aos que me colocam favoritos, são mais de três mil, que mesmo sem palavras me dizem que estão aqui neste espaço que faço por ser um local de reflexão e de pensamento crítico, mesmo que o seja nas pequenas coisas da vida. Porque penso, e sei, que é nelas que nos focamos quando estamos perto do fim, ninguém se lamenta que queria ter feito mais relatórios ou que poderia ter feito mais reuniões de trabalho, daquilo que se vão lamentar é de não terem vivido as "pequenas coisas", os abraços, os sorrisos, estar mais tempo com a família, não ter tanto rancor, compreender o outro, fazer mais por um mundo melhor, ser mais activo, não ter medo e voar - é disso que se vão lamentar.

 

As coisas aqui são simples, não porque eu não tenha opinião, mas porque quero dar espaço a outros pensamentos que me levem até outros saberes, e que me deixem a pensar em outras abordagens, que sei que advêm das suas experiências de vida, é nessa base que cristalizamos as nossas opiniões. 

 

Neste barco que navego, poderei atracar em muitos portos, mas em nenhum deles ficarei, porque gosto de navegar, de sentir o gosto da Liberdade, só utilizo as amarras para meu descanso e a minha âncora é a minha família - como é bom dizê-lo - muitos não têm essa oportunidade de o dizer. Tenho muitos companheiros de viagem, uns vão e vêm, outros aparecem quando lhes dá jeito, às vezes querem comida, outras vezes dormida, e outras ainda só beber um café. Que me interessa que o façam desta maneira? Nada, não me interessa nada. Não sei compreender o ciúme e a inveja, nem as imposições, quero-me livre nesta viagem que faço ao sabor daquilo que encontro, que muitas das vezes não é o que preciso, mas é aquilo que tenho. Eles também, eles também.

 

Eu queria agradecer de uma forma suave, mas suave parece sem convicção, porque as coisas agora são definidas pela forma como te fundamentas, mesmo que isso queira dizer - nada - porque o que fazes não corresponde aquilo que pensas, nem aquilo que realmente queres. Chama-se a isto: integração. 

 

Eu não quero estar integrada, eu quero é viver, e é isso que faço, todas as vezes que me apetece. Obrigada por estarem aí.