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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Cinquentas - Eu

31.07.19, Alice Alfazema

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Ilustração  Francesca Escobar

 

Cinquenta são: 5x10. São cinco anos em cada dedo das mãos. Cinquenta Verões, cinquenta Invernos. Cinquenta brindes.

 

A Isabel, lançou o desafio de falar do que é ter cinquenta anos, e eis-me aqui reflectindo sobre o assunto.

O que senti ao fazer cinquenta anos de vida? Senti que tinha ultrapassado uma meta, ao mesmo tempo um alívio mental de me livrar de bloqueios que a sociedade nos impõe. Mesmo que o corpo fraqueje eu não me importo, estou a aprender a viver com calma, a me dar mais espaço e a mimar-me. Olho o tempo de uma outra forma, é um tempo de como quem anda numa montanha-russa, uma descida vertiginosa, da qual não podes fugir, que te arrepia e te mete medo, mas que logo passa, e até é divertido lidarmos com as situações das quais ouvíamos as "pessoas de idade" falar quando éramos jovens. São as dores, os olhos que falham, os ouvidos, os cabelos crespos, as rugas e a secura, dizem que tudo fica seco. É mentira. Talvez isso aconteça a quem não alimente a mente. É um outro tempo, com outro conhecimento. 

 

Não me afectam as rugas nem os cabelos brancos, pinto o cabelo até me apetecer, quanto às rugas: basta-me a pele macia e cheirar bem. Não dispenso um perfume que me abraça e que vai até aos outros. 

 

Passar esta meta indica que estamos na recta final do nosso caminho, importa pois, não desperdiçar e arriscar, "fazer o que ainda não foi feito", é viver mais com menos tempo, é descascarmo-nos a cada dia, deixar para trás a vergonha, o medo, é apanhar outra vez aquela sensação do que é ser criança, mas com a experiência que a vida nos deu. É bom!

 

 

Regresso

30.07.19, Alice Alfazema

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Ilustração Dianimations

 

 

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

 

 

 

Poema Manuel António Pina

Influenciar

28.07.19, Alice Alfazema

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Houve um tempo em que os pais nos ralhavam por sermos influenciados, diziam-nos que devíamos ter personalidade própria, ter atitude e não ser um mero espelho de alguém.

 

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Hoje ser-se influenciado é algo que é reconhecido socialmente, mesmo que seja no sentido negativo.

 

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É uma dança demasiado perigosa, sem suporte emocional. Dançada por muitos e assistida por muitos mais. 

 

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As mazelas que possam vir a ficar são ignoradas, porque o que importa é o momento, mesmo que seja fugaz, como uma chama de um fósforo em dia de vento.

 

 

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Influenciar é assim levado ao limite: através de um ecrã, de uma fotografia, pelas palavras, pelas atitudes. É uma coreografia de outros para a tua vida. E danças sem pensar. 

 

 

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A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração,num momento,
da humana graça natural

No solo não,no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança-não vento nos ramos
seiva,força,perene estar
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão 
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser
por sobre o mistério das fábulas

 

 

 

 

Poema é de Carlos Drummond de Andrade e as ilustrações são de  Ashvin Harrison

 

 

 

 

Às vezes...basta uma palavra, basta uma imagem.

27.07.19, Alice Alfazema

 

Às vezes basta uma imagem

para nos dar coragem

e continuar

 

Às vezes basta uma palavra

para soltar a raiva

e enlouquecer

 

Por vezes és tu, outras sou eu

e o que se viveu não é fácil,

nunca é fácil

 

Às vezes basta outra imagem

para puxar uma lágrima

e duvidar

 

Tu sabes

eu tenho saudades

tantas saudades

de te ver sorrir

um dia

talvez amanhã em pézinhos de lã

 

 

Amor vai voltar

 

 

Música : Xutos & Pontapés

Letra : Tim

Kalú: Bateria , Coros, Percussão

Tim: Voz, Baixo, Guitarra Acústica

João Cabeleira: Guitarra

Gui: Sax

Vicente Santos: Key

 

Trasparência

27.07.19, Alice Alfazema

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Ilustração Jeffrey T. Larson

 

 

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres

 





Sophia de Mello Breyner Andresen

 

A Rainha Descalça

26.07.19, Alice Alfazema

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Acabei de ler há dois dias A Rainha Descalça, de Ildefonso Falcones, já tinha lido outros dois livros deste autor, A Catedral do Mar e A Mão de Fátima, nos três senti a mesma escrita criativa e fascinante, com que o autor descreve a época e a história de Espanha e de vários personagens, não são histórias singulares, são sim de uma comunidade representadas por um ou vários actores, onde os sentimentos e os lugares nos ficam na imaginação, tal como fazemos com uma viagem que nos fica na memória. Descobrir pormenores históricos de lugares que conhecemos, sentir a narração sempre vibrante que nos cativa a cada página e depois ficar com aquele gosto amargo que o livro acabou, ler as últimas páginas devagar para saborear até ao último minuto, e chegar ao fim com a certeza de que já não sou a mesma que iniciou aquela leitura. São obras com alma. 

 

 

"Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte."

 


Carlos Ruiz Zafón in A sombra do vento

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