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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Corpo de Deus

20.06.19, Alice Alfazema

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Ilustração Jun Chul Lee

 

Cada vez entendo menos qual é o meu papel na escola, e o trabalho como auxiliar. Hoje é feriado e dói-me as mãos e os pulsos, tenho os dedos inchados de tanto apagar sublinhados e escritos. Lembram-se que agora os manuais escolares são à borla? E devem de ser entregues nas melhores condições? Estas são algumas frases que se ouvem:

Eu não sabia que era para apagar...

Vocês estão a apagar esses podem também aparar os meus, tenho de ir trabalhar.

Estive a apagar os livros do meu filho fiquei com uma bolha no dedo.

 

 

 

 

 

#diariodagratidao 17-06-2019

17.06.19, Alice Alfazema

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Ilustração  Quint Buchholz

 

Hoje o meu dia de trabalho foi de borracha na mão, a apagar escritos e sublinhados nos livros escolares. Quando cheguei a casa comi uma enorme bola de gelado para superar o trauma. Mas desconfio que sou capaz de vir a sonhar com isto, que a borracha me persegue e eu não sou capaz de fugir dela. Ó meu Deus, que mal fiz eu na outra encarnação? Ainda bem que existem gelados!

 

#diariodagratidao 16-06-2019

16.06.19, Alice Alfazema

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Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender.

O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.

Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analise, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.

Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto — uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.

Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.

 

 

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

 

💋

15.06.19, Alice Alfazema

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Ilustração  Neil Thompson

 

 

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

 

 

Antoine de Saint-Exupéry

 

Escrever

14.06.19, Alice Alfazema

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Ilustração Linda Jacobus

 

Para dizer que se gosta de escrever não basta relatar uma conversa, descrever um sítio ou um estado de alma. Escrever é muito mais que isso, é por nas frases pedaços de nós, sensações e cheiros, é conseguir que os outros percebam através das nossas palavras o que vemos sem os olhos. 

 

Nem é preciso um texto longo, ou uma frase elaborada, é antes como uma pintura simples, são leves pinceladas que compõem a visão das palavras e chegam ao alcance do outro, não como um relatório, mas antes como uma prosa cantarolada na brisa de um pensamento.