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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Orla

26.06.19, Alice Alfazema

Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível.

Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla

Desde a sombra do bosque desde a orla do mar

 


Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca da Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia.



Só Antinoos mostrou seu corpo assombrado
Seu nocturno meio-dia

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

#diariodagratidao 25-06-2019

25.06.19, Alice Alfazema

futuro.jpg

 

Ilustração Elisa Chavarri

 

 

Quantas vezes o futuro nos parece tão distante? E no fim ele chega e parte todos os dias sem darmos por ele, vem de mansinho, fazer-nos cócegas no pescoço. Às vezes o futuro é um osso duro de roer, demora a passar, às vezes é veloz, como uma gazela que foge ao leão. Umas vezes o futuro é um sonho, outras é realidade. Pode ser surpresa, pode ser luz, amor ou felicidade. Pode ser aquilo que quisermos e o que não quisermos, mas importa acontecer, porque cada vez que acontece transforma-se em oportunidade.