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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Dor de corno

06.04.19, Alice Alfazema

Eu quando eu era miúda ouvia muitas vezes esta expressão: dor de corno. Raramente ouvia falar de inveja. Tudo o que estivesse relacionado com inveja, quadrilhice, frustração, ciúmes, mal-dizer, era considerado - dor de corno. Assim fui aprendendo ao longo da vida que existem diversos tipos de cornos. 

 

Para mim faz mais sentido dizer que a pessoa tem dor de corno, do que dizer é frustrada, ciumenta...porque a dor de corno é uma coisa que se carrega, cresce e perfura e continua lá. Já a dor de cotovelo é dor de quem trabalha, só tem dor de cotovelo quem lutou, para mim a dor de cotovelo não é válida na escala da frustração, inveja e outros afins. 

 

Dor de corno é uma sensação animalesca, do mais profundo primitivismo humano, a inveja por outro animal. No entanto a dor de corno não atinge o visado, apenas quem a tem. Se dissermos que somos alvo de inveja poderemos sentir-nos ofendidos e nem compreender o porquê da coisa, mas se pensarmos que somos alvo de dor de corno, a coisa apenas pertence ao outro.

 

A dor de corno é a consciência profunda, nem todos têm acesso a ela, de que se podia caminhar para uma mudança no sentido de largar os cornos e ficar mais aliviado com a situação, mas a pessoa habitua-se tanto à dor que já não se vê sem ela, e lá anda a carregar a dor de corno para cá é para lá.

 

A dor de corno apresenta-se nas mais diversas formas: escrita, falada, muda, espalhafatosa, com humor, com raiva, com sorriso...atinge novos e velhos e até pessoas que se acham a última bolacha do pacote. A dor de corno pode ser encontrada nos diversos estratos sociais, uns podem ter cornos de vaca, outros de antílope. Nas mais diversas profissões, tanto no trolha como no doutorado. A dor de corno aparece sem a pessoa dar por isso, por vezes os cornos são tão pequeninos que nem reparam neles, acusam os outros, riem dos outros, mas quem os carrega são eles.

 

Podem acontecer calcificações de dor de corno, mas é possível viver com elas desde que se faça uma boa manutenção do corno, com massagens de consciência regulares. Por vezes a dor de corno cresce tanto que não há volta a dar, no entanto são conhecidos casos em que os cornos caem à medida em que a experiência de vida avança, aí a dor de corno desaparece e dá-se início a uma outra vida. 

 

Tanto na dor de corno como na vida há esperança. Basta fazer acontecer. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#diariodagratidao 05-04-2019

05.04.19, Alice Alfazema

final.jpg

 

Ilustração John Shelley

 

 

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo
e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,
o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.
será
que os sinos
dobrarão por ele?
 
 
 
 
 
Poema de Moacy Cirne

 

 

Conversas da escola - DJ

05.04.19, Alice Alfazema

Eu para os miúdos:

- Amanhã é o último dia e há gelados à borla.

- Sim!?

- Sim, e a D. Beta da papelaria vai ser a DJ.

- Então vai ser só música de igreja.

- Música de igreja?! Então é isso que vocês pensam que nós ouvimos? Nós vivemos os anos 80. Sabes o que é os anos 80?

- Não.

- Então vai pesquisar...

 

Hoje vai haver consequências: Não haverá gelados à borla nem DJ anos 80.

💋

04.04.19, Alice Alfazema

 

Ilustração Gwenda Kaczor

 

 

Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo…

 

 

Cecília Meireles

 

#diariodagratidao 03-04-2019

03.04.19, Alice Alfazema

restos de praia 1.JPG

 

Hoje houve uma frase que o meu marido disse ao pai que me emocionou, já a tinha ouvido, mas hoje registei-a de outra forma, olhei para os dois juntos, tenho feito isto muitas vezes, pai e filho, da mesma altura, com o mesmo andar gingão, o filho com a mão sobre os ombros do pai. Olhei para o sol que se punha por detrás do edifício, para o caramanchão de hera verdejante, para as rosas e malmequeres amarelos, há alfazema à porta, algumas árvores floridas. Aquele é um lugar tranquilo e soalheiro. Os dois atravessaram a porta de entrada. Na porta um enorme papel a dizer: puxe.

 

- Vá lá pai, venha com o filho.