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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Gestos

20.01.19, Alice Alfazema

 

Ilustração Anna Franczuk

 

 

Abejaruco.
En tus árboles oscuros.
Noche de cielo balbuciente
y aire tartamudo.

 



Tres borrachos eternizan
sus gestos de vino y luto.
Los astros de plomo giran
sobre un pie.
Abejaruco.
En tus árboles oscuros.

 



Dolor de sien oprimida
con guirnalda de minutos.
¿Y tu silencio? Los tres
borrachos cantan desnudos.
Pespunte de seda virgen
tu canción.
Abejaruco.
Uco uco uco uco.
Abejaruco.

 

 

Federico García Lorca 

 

#diariodagratidao 19-01-2019

19.01.19, Alice Alfazema

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Ontem vi papoilas, não tão vermelhas como esta, eram pequeninas e frágeis, abanavam com o frio que se fazia sentir. A sua vida é breve, desfolham-se rapidamente, mas enquanto cá estão alegram os campos e as beiras da estradas. Tornam o nosso caminho mais colorido.

 

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Este era um bolo que a minha sogra costumava fazer, este fiz eu, o prato deu-mo ela.

 

 

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Aqui é uma janela de uma casa onde já fui feliz, e este é um brinquedo que pertenceu ao meu marido.

 

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Hoje o meu sogro faz oitenta anos, tem Alzheimer, há três anos que está num lugar onde é cuidado, não sabe que dia é hoje, nem que horas são, nem dizer se tem frio ou calor. Se lhe perguntamos se está tudo bem responde: está tudo bem. Perdeu o raciocínio. A capacidade de agir, mas continua fiel a si próprio: sereno.

 

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Das coisas que ele mais gostava de fazer era tratar das plantas, no quintal havia milhentas flores e florinhas. Estas são algumas das fotografias que tirei dessas flores.

 

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- Olha, anda cá ver esta, é nova!

 

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- Tens aqui hortelã da ribeira e lucia-lima para fazeres um chá, apanhei há bocadinho. Quando quiseres mais é só pedires.

 

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- Querem cá vir comer moamba de galinha?

 

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- Onde está o João?

- Foi com o avô até ao jardim para jogarem à bola.

- Foi com o avô ver os barcos.

- Foi com o avô jogar ténis.

 

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- Nós vamos à Figueirinha depois do trabalho, quererem vir? Depois dão banho aos miúdos aqui, jantam e vão para casa.

- Está bem, até logo.

 

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- Olha lá esta rosa, é bonita não é?

 

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-E esta?

 

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- Querem cá vir comer sardinhas assadas? Estão gordas.

 

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- Hoje o teu sogro é que fez os bombons de amêndoa. 

 

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São vozes que ficam, mesmo sem já cá existirem. Quando o vamos visitar, eu e o meu marido levamo-lo a um sítio onde há bolos e moscatel, também há música de fundo no ar, fingimos então que está tudo dentro dos conformes, apreciamos o moscatel e o doce, perguntamos e respondemos, e no fim o meu marido pega no braço do pai e pergunta: Vamos embora pai?  

 

Hoje estou grata por ter existido este tempo e por os meus filhos terem tido uns avós presentes, eu sei que esse tempo jamais voltará, mas eles ficarão para sempre em nós.