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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Chá de fim de ano

29.12.18, Alice Alfazema

 

 

Ilustração Paul McKnight

 

Tenho cá por casa, em muitos sítios, muitos textos escritos por mim, este que vou deixar aqui hoje já não me lembro de quando o escrevi, também me acontece ficar surpreendida com aquilo que escrevo, não me lembro de ter escrito aquilo, poderia escrever muito mais, mas as ideias fogem-me, esqueço-me delas, são como bolas de sabão, puf, já se foram.

 

Sentem-se confortavelmente e bebam comigo este chá de fim de ano:

 

Qual a diferença entre um beijo de cão e um beijo de gato? Serão os beijos coisas palpáveis em termos de contabilidade emocional? Seremos nós os únicos que nos iludimos com um beijo?

 

Deixei o meu beijo em cima do balcão, ficou ali escondido atrás do copo de água. Quando alguém o bebesse poderia levá-lo e ele voaria acima do mundo. Os beijos são borboletas? Estarão em estado de casulo até se dar a transformação? Existem beijos que são traças e que só saem à noite. Existem também beijos que são bonitas mariposas, de muitas cores. Alguns atravessam rios e oceanos, explodem quando conseguem encontrar parceiro.

 

Os beijos são coisas únicas, tais como impressões digitais. É teu é meu, mas também pode ser nosso. Sai da boca, vem do coração, é um indicador de felicidade? Há beijo morno, beijo quente, beijo frio, sem cor, sem sabor, sem entusiasmo, há beijos trocados, exigidos, dados. Um beijo meu, um beijo teu, um beijo nosso. 

 

💋

 

 

 

 

 

Pedalar no tempo

27.12.18, Alice Alfazema

 

Ilustração Olga Salamatova

 

Aí, de repente, os meus olhos se abriram, e vi como nunca havia visto. Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão a lenha, as árvores de outono, o banho de cachoeira, mãos que se seguram, o abraço de um filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse para mim mesmo: "Valeu a pena eu haver vivido a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efémeros que justificam toda uma vida".

 

Rubem Alves

 

 

 

Depois

25.12.18, Alice Alfazema

Ilustração Annya Kai

 

 

Depois do dia vem noite,

 

Depois do dia vem noite,

Depois da noite vem dia

E depois de ter saudades

Vêm as saudades que havia.

 

 

 

Fernando Pessoa

 

É Natal outra vez

24.12.18, Alice Alfazema

 

IMG_1039.JPG

 

Roubei esta fotografia à miúda. Não me dei ao trabalho de fotografar, os olhos dela trazem aquilo que vejo. 

 

Antigamente quando eu era miúda via o Natal em tons de azul bébé, para mim o Natal vinha com essa cor, a festa era sobre um nascimento de um bébé, um menino, depois havia a surpresa das prendas, que chegavam apenas após o nascimento do Menino, na manhã de Natal. Era uma sensação suave e boa, como se aquele bébé fosse de toda a gente. Tínhamos toda a gente, avós, tios, primos, irmãos, depois veio a vida e levou muitos deles, quase todos.

 

A casa ficou vazia e o meu Natal mudou de cor. Passei a ver o Natal com a cor vermelha, era a cor que dava alegria ao Natal, não a festa em si, mas a cor. É uma cor forte, alegre, da cor do sangue, mas o sangue por vezes também é triste, pode ser a cor da perda, no entanto a cor vermelha alegra e nos dá energia, traz movimento, é uma forma de nos transportar para outros sentidos. 

 

Hoje vejo o Natal com outra cor, vejo o Natal verde, daquele verde que podemos ver por aí nas bermas das estradas, aquele verde que brota da terra com a força do nascimento da erva fresca e bravia, que cresce onde quer, e se veste de orvalho à luz da manhã, encanta-me percorrer os caminhos desse verde.

 

Nesta véspera de Natal,  fui ver o Rio, a Serra e a árvore de Natal, aquela que está lá em cima, o Rio estava sereno e lindo como sempre, andava gente a caminhar na sua margem, uma gaivota gritou na beira da praia, um homem num bote percorria as suas águas, havia uma calmaria entre o azul e o verde da Serra que me trouxeram paz e me iluminaram por dentro, uma luz que não sou capaz de descrever em palavras.

 

Fui ver então a árvore luminosa, à luz do dia é apenas uma armação, sem encanto nem beleza, branca e sem ninguém, só ali no meio da avenida, como se não existisse. A solidão.

 

E o Natal é isto: luz e solidão. É o que podemos ser e aquilo que somos. A forma como nascemos, as nossas escolhas e as escolhas dos outros. Podemos estar sós porque queremos ou porque a vida nos levou a isso, mas há sempre uma forma de renascer, basta escolhermos a Luz. E a luz existe por todo o lado, não tem dono, é livre, é imensa, é aquilo que nos faz respirar, que nos cativa, é a serra e o mar, o sol e a lua, as cores da natureza, o frio e o vento, o calor e a chuva, a luz é aquilo que tem a capacidade de nos fazer renascer a cada dia, seja ele Natal ou um outro dia qualquer.

 

 

Feliz Natal! Que a luz esteja sempre convosco.