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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O que nos embala?

31.07.18, Alice Alfazema

 

Ilustração  Raissa Figueroa

 

 

 

As pessoas falam, especializam-se, dão opiniões fundamentadas, têm argumentos, objectos preferidos, crenças, sabem que em determinada idade é suposto fazer isto e aquilo, sabem que devem orientar-se para o futuro. Preocupam-se com a economia, com a violência, com o ambiente e com as outras pessoas.

 

Temos então um mundo construido na especialização da opinião e da experiência. Cada um com a sua pele tenta destacar-se do outro, cada um com a sua verdade, pensando que cada um é especial, um mais especial que o outro.  

 

Como uma escada no universo, onde o primeiro degrau é desconsiderado. Alguns sobem e destacam-se lá no cimo, olham para baixo e têm o mundo aos seus pés. A sua visão parece ser abrangente. Mas estão demasiado longe para reconhecer o que se passa naquela imensa paisagem. 

 

Lá em cima o tempo passa depressa, num ápice a vida se vai. Os anos correm e o tempo não abranda.

 

Afinal o que nos embala? São as emoções que nos embalam. É aquele abraço longínquo que nos foi dado na infância. É agradecer a quem te apara o pranto, quem te escuta quando falas. 

 

São as banalidades que passam sem darmos conta e que damos por garantido. São as banalidades que não sabemos explicar, nem ousamos discutir, são as dos outros e as nossas, são coisas reles, apenas importantes quando nos julgamos no fim. 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

...impressão digital

30.07.18, Alice Alfazema

 

 

Ilustração  Cheryl Sorg

 

 

Andamos mais pelos pés do que pelas mãos? De todas as sensações que vamos sentindo ao longo do tempo, é nas mãos que as carregamos? Assim antes dos olhos as mãos. Um olhar palpável. 

 

Tens em ti todas as sensações que pensas? Na ponta do dedo, na ponta da alma. Descarregamos loucuras, choros e ternuras, nas pontas dos dedos. Acariciamos uma flor, uma pele macia, uma ferida que dói, pelas pontas dos dedos corremos mundo.

 

Agarramos num copo, numa fruta, num punhado de areia aquecida ao sol. Na ponta dos dedos está o começo e talvez o fim, onde tudo começa, onde tudo se esquece. 

 

Num shiuu, num indicador acusatório, num adeus, numa conchinha de beijos, na ponta dos dedos. 

 

Há uma festa em unir as mãos, uma prece na ponta dos dedos, um agradecimento, um conhecimento, uma saudade de quem não volta, um reencontro pleno de alegria, tudo na ponta dos dedos. Sensações perdidas, outras que voltam, umas que se desconhecem, outras que queremos repetir. 

 

Levanto as mãos: até já!

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

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