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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

"A amizade é amar o destino do outro" (São Tomás)

04.06.18, Alice Alfazema

Quando eu era pequena lia algumas vezes a Bíblia e fascinavam-me as história dos Santos. Para mim o Céu e o Inferno eram separados por uma pequena linha extremamente frágil. Uma linha de cristal. Que a qualquer momento poder-se-ia quebrar. Imaginava-a como uma ponte de vidro fino que teríamos que percorrer, que ora nos poderia levar ao paraíso ou ao tão temido inferno.

 

O percurso de vida dos santos, as suas provações e finalmente a sua conversão eram temas que me punham curiosa. Fiquei a saber que alguns tinham sido verdadeiramente maus, mas que em determinada altura da sua vida começaram a mudar e tornaram-se santos aos olhos de Deus e do mundo. Muitas vezes fiquei a pensar e a contar se teriam tido mais anos de vida enquanto seres maus ou enquanto seres bondosos. Muitas vezes a balança ficava no lado mau.

 

E então pensava: Como poderia uma pessoa ser santa quando tinha passado mais tempo de vida a fazer o mal do que o bem? Resignei-me àquela leitura, e conclui que sendo assim posso fazer o que bem me apetecer, ainda tenho muito tempo para ser santa. 

 

 

 

Um copo de leite e o resto da vida

02.06.18, Alice Alfazema

Ilustração  Sarah K. Lamb

 

 

 

Um dia, um rapaz pobre que vendia mercadorias de porta em porta para pagar seus estudos, viu que só lhe restava uma simples moeda de dez centavos e tinha fome.

 

Decidiu que pediria comida na próxima casa. Porém, seus nervos o traíram quando uma encantadora mulher jovem lhe abriu a porta. Em vez de comida, pediu um copo de água.

 

Ela achou que o jovem parecia faminto e assim lhe deu um grande copo de leite. Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou:

 

- Quanto lhe devo?
- Não me deves nada - respondeu ela. E continuou:
- Minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma oferta caridosa.

 

Ele disse:

- Pois te agradeço de todo coração.


Quando Howard Kelly saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens ficou mais forte. Ele já estava resignado a se render e deixar tudo.

 

Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos locais estavam confusos. Finalmente a enviaram à cidade grande, onde chamaram um especialista para estudar sua rara enfermidade. Chamaram o Dr.Howard Kelly. Quando escutou o nome do povoado de onde ela viera, uma estranha luz encheu seus olhos. Imediatamente, vestido com a sua bata de médico, foi ver a paciente.

Reconheceu imediatamente aquela mulher e determinou-se a fazer o melhor para salvar aquela vida. Passou a dedicar atenção especial aquela paciente. Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha.

 

O Dr. Kelly pediu a administração do hospital que lhe enviasse a fatura total dos gastos. Ele conferiu, depois escreveu algo e mandou entrega-lá no quarto da paciente. Ela tinha medo de abri-la, porque sabia que levaria o resto da sua vida para pagar todos os gastos. Finalmente abriu a fatura e algo lhe chamou a atenção, pois estava escrito o seguinte:

 

Totalmente pago há muitos anos com um copo de leite (assinado).
Dr.Howard Kelly.

 

 

 

Amarrotado

01.06.18, Alice Alfazema

Ora aqui estou eu de focinho amarrotado, deitadinho, numa soneca que se prolonga por vários colos. Adoro colinho, não gosto muito de festas e abracinhos, mas lá tem de ser a troco de colo sou capaz de tudo. Bem, também sou capaz de ser bonzinho por breves momentos, ou enquanto durar uma refeição em família, essas são as melhores, muita gente a quem cravar qualquer coisinha. 

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Dia Mundial da Criança

01.06.18, Alice Alfazema

 

Ilustração Migle Kosinskaite

 

 

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

 

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

 

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

 

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

 

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

 

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

 

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

 

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

 

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

 

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

 

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

 

 

 

Poema de Manoel de Barros 

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