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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Micro contos - O lado prático

29.06.18 | Alice Alfazema

 

Era uma vez um menino que gostava de inventar, experimentar emoções e sentir o lado prático da vida. 

 

 

 

E uma menina que gostava de brincar com a sombra e ver os reflexos na água.

 

 

Um dia cresceram e esqueceram-se da infância e do lado prático da vida.

 

 

 

 

 

Passaram então a caminhar sem parar, dia após dia. Começaram a chamar lamechas às emoções. Com o tempo foram  perseguidos pelas sombras e ficaram perdidos nos seus reflexos. 

 

 

 

 

 

 

As ilustrações são de Ben Javens 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

Destino

27.06.18 | Alice Alfazema

cor de rosa.jpg

 

Quando nós dizemos a palavra "destino" do ser, então queremos dizer que o ser se nos atribui e se aclara e clarificante arruma o tempo-espaço, onde o ente pode aparecer.

 

No destino do ser, a história do ser não é pensada a partir de um acontecer, que é caracterizado através de uma evolução e de um processo.

 

Pelo contrário, define-se a essência da história a partir do destino do ser, a partir do ser enquanto destino, a partir daquilo que se nos remete, ao retirar-se.

 

Ambos, remeter-se e retirar-se, são um e o mesmo. Não de duas maneiras distintas. Em ambos rege de um modo diferente o perdurar mencionado anteriormente, em ambos, isto é, também na retirada, aqui até ainda mais essencialmente.

 

O termo destino do ser não é uma resposta, mas uma pergunta, entre outras a pergunta pela essência da história, na medida em que nós pensamos a história enquanto ser e a essência a partir do ser.

 

 

Martin Heidegger 

 

Jogo do galo

27.06.18 | Alice Alfazema

 

Ilustração Yiyong Zhu

 

 

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

 

 

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

 

 

Poema de João Cabral de Melo Neto

 

 

 

De toda a parte e de lado nenhum

26.06.18 | Alice Alfazema

 

Gostava de ter favoritos mas não tenho. Sinto que é demasiado fácil ter-se favoritos. Um amigo favorito, uma cor favorita, um prato favorito. Ter-se favoritos é não investigar, não dar oportunidades aos outros, é ver apenas numa direcção, numa cor, num sabor.

 

Gosto de demasiadas cores para ter uma de eleição, até porque há dias em que gosto mais de umas que de outras. Dá-me mais jeito. Gosto de comer diversos sabores, se tivesse um de preferência decerto que o enjoaria. 

 

 

 

E amigos? Porque haveria de ter preferências? Todos têm decerto defeitos e qualidades. Porque apostar nas qualidades ou reduzir outros a defeitos? Aquilo que nos define é o nosso percurso de vida, posso ter determinado defeito ou determinada qualidade e isso dever-se àquilo porque já passei. Ser-se amigo de alguém é saber compreender isso, alcançar essa visão é o esforço da amizade, um amigo liberta, não exige.

 

Não pertenço a grupos, tenho pouca paciência para a religião, no entanto compreendo a compaixão, a empatia, a solidariedade, só não compreendo a necessidade da miséria para a busca de um ser bondoso.

 

 

 

Se pudesse me definir como um animal teria certas dificuldades, gosto de águias, do voo do condor, do rugido do leão, do uivo do lobo, da elegância do andar uma girafa, da solidão de um percurso de uma baleia enquando percorre milhares de quilómetros, da tranquilidade do nadar de um tubarão branco, da alegria de um corre corre de um chimpanzé entre os ramos das árvores.

 

Tenho sérias dificuldades em fazer testes de personalidade e afins, nunca consigo responder claramente e com exactidão àquilo que me é perguntado porque não tenho favoritos. Parece que todos pertencemos a algum lado, não me sinto de lado de nenhum, mas sinto-me de toda a parte. 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

As ilustrações são de Andrey Remnev 

 

 

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