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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Mesmo com a boca fechada

26.05.18, Alice Alfazema

 

Ilustração  Catherine Campbell 

 

 

 

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

 

Manuel António Pina

A minha filha

25.05.18, Alice Alfazema

 

Ilustração  Olesya Serzhantova

 

Olhei para a miúda gira em que se tinha tornado. Mantinha o mesmo sorriso de sempre, grande e aberto ao mundo. Aquele ser tinha saído de dentro de mim, serena e chorona ao mesmo tempo, molengona e simpática, organizada e persistente, com um sentido crítico muito apurado, uma visão do mundo muito humanista e ecologista. Moderna e vaidosa, cuidadosa, prática e amiga.

 

Olhei para ela ali naquele palco e encantei-me com aquele som que vinha de toda a orquestra, juntos eram uno, e o meu coração cresceu e foi até lá, deu-lhe um beijinho devagarinho, e voltou a ficar pequenininho, e grande outra vez. E quando estou neste estado vejo todas as cenas que já vivemos e imagino as que vamos viver. Comprei-lhe uma blusa linda, vaporosa, com botõezinhos de punho e manga esvoaçante, sei que vai combinar com a leveza da flauta transversal e eu vou estar lá, daqui a nada, para lhe bater muitas palmas.  

 

 

 

Alice Alfazema

 

Conversas da escola - ZOO

24.05.18, Alice Alfazema

À frente do balcão tenho uma grade que separa o bar da sala polivalente, essa grade é de metal e cheia de buraquinhos, como se fosse uma renda, de dentro consigo ver o que se passa de fora, mas de fora é mais difícil de ver o que se passa cá dentro. Para que se consiga ver aquilo que existe para lá da grade é necessário encostar a cara ao metal e ficar lá colado a espreitar, muitas vezes com uma mão sobre os olhos. Assim, acontece que quando estou lá dentro a preparar a vitrine para a abertura tenho muitas vezes clientes a espreitar pela grade:

 

- Eu não quero ninguém a espreitar por aqui! Não estou no zoológico!

 

- Temos fome!

 

 

Alice Alfazema

Porque há tanta gente preocupada com moda, culinária e futebol e tão pouca gente preocupada com a realidade

23.05.18, Alice Alfazema

Ilustração  Claudia Tremblay

 

 

Multipliquei-me para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me entreguei-me.

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

 

 

 

 

Álvaro de Campos

A pintura é inscrever na tela o vivo da vida

22.05.18, Alice Alfazema

porcos.png

 

Pintura de Júlio Pomar

 

 

 

 

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário.
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

 

 

 

Poesia Carlos Drummond de Andrade