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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Um cacho para mim outro cacho para ti...

22.04.18, Alice Alfazema

                                     

 

Ilustração Gil Robles

 

 

 

Estava eu, num domingo de manhã,  numa grande superfície comercial, sozinha, repito sozinha, diante de umas quantas caixas de bananas, mais de quinze caixas grandes, cheias de cachos de bananas já amarelas, havia algumas verdes, mas poucas.

 

Portanto... estava eu, sozinha, diante das bananas, dou uma olhadela pelos cachos e escolho uma caixa, já tenho um saco aberto na mão, deito a mão à caixa e pego um cacho, na minha casa come-se banana a rodos, mas saem-me apenas três bananinhas pegadas, coloco-as no saco e preparo-me novamente para jogar a mão ao resto do cacho...

 

Mas, eis que uma mão vinda não sei de onde me rouba o cacho que eu ia pegar. E o que é que eu faço? Isto sai-me automaticamente da boca: Ai, ai, aiii! Assim como quem ralha com miúdos, quando os apanha a fazer travessuras. A senhora sai do seu transe da banana mais madura e boa, e doce, e coisa e tal e tal... ainda com a mão esticada e olha para mim. Olho para ela e enfrentamo-nos por breves segundos. Ela desvia o olhar e recolhe o cacho rapidamente junto ao corpo, fugindo de seguida para uma balança longe dali. Sigo-a com o olhar, como num filme do faroeste. Volto, então novamente à minha missão e retiro mais umas quantas bananas da mesma caixa, fecho o saco e preparo-me para ir até à balança, mas assim que deixo o meu lugar vazio, eis que nova senhora se aproxima da mesma caixa e joga a mão a mais outro cacho. Conclusão: sou uma influenciadora de bananas.

 

 

(a imagem representa o meu olhar mais terrifico, quando se trata de bananas)

 

Alice Alfazema

 

  

Micro contos - O animal quase perfeito

21.04.18, Alice Alfazema

 

Ilustração  Andrew Baines

 

 

Um homem andava a passear o seu peixe de estimação. Aquele peixe era quase perfeito. Era silencioso e  muito brilhante, as suas escamas reflectiam a luz do sol e por vezes criavam um arco-íris que ondulava. O seu peixe tinha uma personalidade tranquila, só tinha um senão: gostava muito de água.

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

Conversas da escola - A dúvida

19.04.18, Alice Alfazema

São duas gémeas quase idênticas, andam no 5º ano e ao longe são iguais, no dia da reunião de pais ralhei com uma delas, mas fiquei na dúvida, no dia seguinte pergunto à primeira que vejo:

 

- Então, quem é que estava em cima do cesto de basquetebol, eras tu ou a tua irmã? 

- Era a minha irmã! Ela é mais macaca que eu.

 

 

 

Alice Alfazema

Para além de...

16.04.18, Alice Alfazema

 

Ilustração Christian Schloe

 

 

 

Para além da curva da estrada

Talvez haja um poço, e talvez um castelo,

E talvez apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

E para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva

Há a estrada sem curva nenhuma.

 

 

 

Alberto Caeiro

 

 

 

 

 

Alice Alfazema