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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Livros

09.03.18, Alice Alfazema

Ilustração  Laura Lacambra Shubert

 

 

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde… em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

 

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

 

 

 Rainer Maria Rilke

Conversas da escola - O batente

07.03.18, Alice Alfazema

O senhor exterminador veio até ao nosso humilde estabelecimento, foi chamado de urgência para solucionar um possível problema. Chega na hora do intervalo, pessoas ao balcão... com a sua mala, que parece de ferramentas,  entra pelo estabelecimento adentro e quase grita, mais rápido que isto não há. Da sua mala retira uma seringa grande e ergue-a acima da sua cabeça procurando por todo lado, por onde é que elas andam? As pessoas olham atordoadas, imaginando mil cenários e ele ali, alto e pró cheio, de óculos a meio do nariz, onde é que elas estão? Os meus neurónios param durante uns instantes, tento reuni-los e indico-lhe o sítio onde as avistei. Aí vai ele de seringa em riste. Aplicou, aplicou, aplicou...diz-me depois que vêm da cozinha, que se tem de por um batente na porta para elas não entrarem. Pergunto: batente? Sim, batente, sabe o que é não sabe? Claro, assim elas não podem entrar. Depois foi sentar-se a fazer o relatório da sua intervenção cirúrgica. Pergunto-me quantos indivíduos terá matado, quantos terão fugido e quantos terão ficado feridos. 

 

Resumo: Foi efectuado tratamento contra formigas no bar e refeitório. Durante o mesmo foram detectados alguns indícios de formigas.

 

 

Alice Alfazema

Deixa passar

06.03.18, Alice Alfazema

 

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 

 

 

 

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 

 

 

 

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 

 

 

 

O poema é de Natália Correia, as ilustrações são de Carll Cneut.

 

 

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema