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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Conforto e conveniência

17.03.18, Alice Alfazema

 

Ilustração  Carlo Salomni

 

 

 

A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio.

 

 

Martin Luther King

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

MasterChef canino

15.03.18, Alice Alfazema

ginjolão.jpg

 

Hoje o Ginjas esteve a ajudar-me a fazer a canja. Ele supervisiona as peles da galinha e vê se a sua textura está no ponto. As cartilagens também merecem a sua atenção. É certo que ainda estamos numa fase muito embrionária em termos de criatividade de pratos. No empratamento estou a ter sérias dificuldades pois o prato nunca chega a mais de uns míseros segundos. Desaparece num instantinho. Não há nada em cama de alguma coisa, mas há sempre um prato bem lambido, brilhante, brilhante, melhor que o detergente mais eficaz do mercado. 

 

Alice Alfazema

Ó dona Alicinha gostou do seu dia?

14.03.18, Alice Alfazema

O meu dia foi muito preenchido, cheio de compromissos. A Gisele passou lá pela escola e deixou-me abraços e beijinhos. Não sei se ela  durante a noite vai levar o resto do telheiro de amianto que já está bastante partidinho. Se levar paciência, temos lá muitos baldes para resolver o problema.

 

As árvores assobiavam e os professores ralhavam com os miúdos porque eles estavam a abrir as janelas, afinal era mentira, são as janelas que já estão preparadas para fazer circular ar por causa do malvado calor humano.

 

Havia uma cascata por cima do bar e nos próximos dias é capaz de nascerem musgos pela parede, aproveitámos a água para enxaguar os pratos, água benta, vinda dos céus. Havia também muitos cartões no chão para ensopar a água, será depois reaproveitado para fazer pasta de papel nas aula de EV. Lá fora os miúdos pensaram em fazer canoagem, mas não tinham material, mas fizeram salto em comprimento na poça, uma nova modalidade olímpica.

 

As funcionárias andavam com reles batas que são feitas de tecido de Verão, mas a Gisele gostou do estilo e dos remendos. Diz que dava material para a Moda Lisboa, será uma ideia a pensar no próximo ano.

 

Os miúdos fizeram barulho até mais não, ainda estou a sacudir as orelhas para ver se limpo os ouvidos. No geral gostei.

 

Beijinhos da Alicinha Contina

 

 

 

 

Alice Alfazema

Como é o mapa da tua cidade? Confuso? Limpo? Plano? Sempre em mudança? Velho? Sem cor?

13.03.18, Alice Alfazema

Ilustração  Ed Fairburn

 

Olho o mapa da cidade 
Como quem examinasse 
A anatomia de um corpo... 

(É nem que fosse o meu corpo!) 

Sinto uma dor infinita 
Das ruas de Porto Alegre 
Onde jamais passarei... 

Há tanta esquina esquisita, 
Tanta nuança de paredes, 
Há tanta moça bonita 
Nas ruas que não andei 
(E há uma rua encantada 
Que nem em sonhos sonhei...) 

Quando eu for, um dia desses, 
Poeira ou folha levada 
No vento da madrugada, 
Serei um pouco do nada 
Invisível, delicioso 

Que faz com que o teu ar 
Pareça mais um olhar, 
Suave mistério amoroso, 
Cidade de meu andar 
(Deste já tão longo andar!) 

E talvez de meu repouso... 

 

 

 

Mário Quintana

 

 

Alice Alfazema

 

 

Tempestade Félix

11.03.18, Alice Alfazema

Eram mais ou menos três da madrugada, um trovão avassalador faz soar a sua altivez, o prédio estremece, o quarto ilumina-se, o quadro eléctrico vai abaixo, o marido grita, o que é isto? Ela levanta-se, atordoada, todas as suas musculosidades tremem, aquilo pareceu-lhe uma bomba, parecia que ia ouvir sirenes a todo o momento. Coisa estranha. Procura algo no escuro. Procura. O marido pergunta, estás à procura do quê? Do casaco. Estou à procura do casaco. 

 

 

Alice Alfazema

Sem nada fazer

10.03.18, Alice Alfazema

Ilustração Anne-Soline Sintès

 

 

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas 
que o vento não conseguiu levar: 
um estribilho antigo 
um carinho no momento preciso 
o folhear de um livro de poemas 
o cheiro que tinha um dia o próprio vento... 

 

 

Mario Quintana

 

 

 

Alice Alfazema