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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Vida de cabra, cabra é a vida, cabra-cega...

29
Dez17

 

Ilustração  Pham Quang Phuc

 

 

Falei com uma cabra.
Sozinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.

Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.

Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.

 

 

Umberto Saba

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

Micro contos - A mala

28
Dez17

 

Ilustração Tsuji Megumi

 

 

Ela pegou na mala com muito carinho, tinha-lhe custado uma pequena fortuna, acariciou-a e sentiu o macio da pele na sua pele, pele com pele. Escolheu um bonito vestido para estrear aquele objecto tão encantador, estava deveras entusiasmada. Olhou-se então ao espelho e gostou do que viu. Linda. Colocou a mala no braço e afagou-a naquele canto onde tinham caído lágrimas daquela costureira que vivia lá muito longe.

 

 

Alice Alfazema

Xeque-mate

27
Dez17

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Anna Muzychuk, é ucraniana tem 27 anos e é dupla campeã mundial de xadrez. Estamos em 2017. O campeonato mundial de xadrez realiza-se na Arábia Saudita, durante esta semana, entre os dias 26 e 30 de Dezembro de 2017, a campeã mundial recusa-se a participar porque não quer ser obrigada a usar a veste feminina saudita, a abaya. Estamos em 2017.

 

E diz:

 

 

 

 

“Em poucos dias vou perder dois títulos mundiais, um a um. Apenas porque decidi não ir à Arábia Saudita. Por não jogar com as regras de outros, por não usar abaya, por não ter de ir acompanhada à rua, e finalmente por não me sentir uma criatura secundária”

 

 

 

“Há exatamente um ano ganhei estes dois títulos e era a pessoa mais feliz no mundo do xadrez, mas agora sinto-me muito mal. Estou preparada para lutar pelos meus princípios e faltar a este evento, onde, em cinco dias, esperava ganhar mais do que numa dezena de competições”

 

 

 

 “Tudo isto é irritante, mas o mais perturbador é quase ninguém se importar realmente. Este é um sentimento amargo, mas ainda não é o que vai mudar a minha opinião e os meus princípios. O mesmo vale para a minha irmã Mariya — e estou muito feliz por partilharmos este ponto de vista. E sim, para aqueles poucos que se importam — vamos voltar!”

 

 

 

“Primeiro Irão, depois Arábia Saudita… Pergunto-me onde serão organizados os próximos campeonatos mundiais femininos. Apesar do recorde de títulos, não vou jogar em Ryad, o que significa perder dois títulos de campeã mundial. Para arriscar a tua vida, para usar abaya o tempo todo? Tudo tem os seus limites e os véus no Irão já foram mais do que suficientes”

 

 

 Parabéns Anna!

 

 

Alice Alfazema