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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Feliz Natal! Agarrem a vossa estrela. :)

24.12.17, Alice Alfazema

 

Ilustração  Lucy Fleming

 

 

 

Que os teus olhos sejam sempre os portais
Por onde se perdem os meus encantos,
E neles encontre todos os santos
Que lhe agraciaram com a minha paz

 

Que o teu jeito sapeca de menina
Nunca deixe solta a maturidade,
Que a tua mente desfrute a liberdade
Dos que desacreditam de uma sina


Que guardes consigo as muitas estrelas
Vindas do vasto céu da tua esperança
E não duvides da beleza em tê-las,


Como um farol a guiar as mudanças
Porque se, atenta, puderes vê-las
Verás que és ainda a mesma criança

 

 

 

Poema de Petrônio Augusto Carvalho Olivieri Filho

 

 

Alice Alfazema

 

 

Várias partes repartidas por coisa nenhuma

23.12.17, Alice Alfazema

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

 

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Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

 

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Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,
linguagem.

 

 

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Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

 

 

Poema de Ferreira Gullar

 

 

Alice Alfazema

O meu Presépio de Natal

22.12.17, Alice Alfazema

Este é o meu presépio, feito com figuras de barro que pertenceram à minha mãe, uma herança feita de terra vermelha, um rei já tem o pescoço colado, caiu do camelo, mas continua no activo, fazendo a sua parte levando todos os anos a sua oferta ao Menino.

 

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Os camelos estão cansados da longa viagem que fizeram do sótão até à sala, estiveram mais de duas semanas no corredor fechados numa caixa colada com muita fita cola e embrulhados em papel de propaganda. Finalmente viram a luz do candeeiro da sala e encontraram-se com as estrelas que brilham na velha árvore artificial de natal.

 

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Aqui estão os três Reis Magos, no meio das ovelhas, para celebrar o nascimento, a renovação, o começo da vida. Um começo que começa nu, frio e choroso. Tal como o Inverno que prepara o caminho para os brotos.

 

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Aqui são todos um, sem olhar a vestes, sem olhar a línguas, sem olhar a espécies.

 

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A minha árvore é um amontoado de anos, cada bola, cada ano, muitas cores, velhas fitas, nada ali é novo.

 

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As cores aparecem ligadas por coisa nenhuma, é uma desarmonia colorida, quente que envolve lembranças de outros natais, de outros risos que não posso mais ouvir, mesmo que queira. No entanto, parece que me podem aparecer a cada instante. 

 

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O velho burro aquece o meu Menino, acompanhado da vaca, o menino parece confortável nas palhinhas, como tantos outros, que se riem da miséria em que vivem e dos trapos que vestem. 

 

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A música é uma constante na minha sala, nunca poderia faltar na minha árvore.

 

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Duas semicolcheias e uma clave de sol, façam a música que mais gostarem, bailem, ouçam, vejam, vivam como se tivessem sempre a renascer, assim é a música.

 

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O Menino está rodeado pela Mãe e pelo Pai, a face da mãe está corada de felicidade, é tempo de celebrar a vida que se repete.

 

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E de agradecer aos amigos que nos dão provas de amizade e não de utilidade, porque a vida é uma ponte para surpresas nem sempre boas.

 

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Fui colher as verduras à Serra, para tê-la perto de mim, porque os amigos também podem ser de uma outra dimensão, num outro corpo que não o humano. 

 

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Que surpresa, alfazema no meio do chão, é o meu presente para o Menino, à que perfumar a vida, para depois colher, para recordar, para amar e deixar ir quem não faz parte daquilo que queremos ser.

 

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A mulher lava a roupa num  dia de muito frio, segue com resiliência, porque na vida precisamos ser assim, não desistir e resistir. Lá haverá um tempo em que seremos lembrados, que o sejamos por boas razões.

 

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O pastor continua tomando conta das suas ovelhas, sem pressa, leva-as pelos prados mais verdes para que comam o melhor que tem para lhes dar. Ele e o seu rebanho são apenas Um.

 

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E as ovelhas agradecem dando-lhe a sua lã que será quente numa boa camisola ou numa manta como a que te cobre neste dia de muito frio.

 

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O Menino está neste momento a rir, será que está feliz por ser importante para alguém?

 

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Feliz Natal! E que ele dure muito mais que um dia.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"A luz é a sombra de Deus!"

20.12.17, Alice Alfazema

 

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Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

 

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Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina  realmente os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos  e na boca 

 

 

Mário Cesariny

 

 

Alice Alfazema