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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Porque está a escola fechada?

27.10.17, Alice Alfazema

Ilustração  Del Kathryn Barton

 

 

 

É sete e meia da manhã, já estão miúdos à porta da escola, o horário de abertura é às oito e quinze, mas a esta hora já começam a chegar crianças à escola, ficam por ali até ser hora das aulas começarem. Todos os dias vêm dois funcionários mais cedo para abrir o portão para que esta malta possa entrar para dentro do recinto escolar e assim os pais irem mais tranquilos para o trabalho, sabendo que os filhos estão em segurança. 

 

Muitos têm aulas só no período da tarde, mas chegam de manhã porque não querem estar sozinhos e porque sentem que estão melhor na escola. A escola para eles é parte da família, é lá que têm a maioria dos amigos, é ali que fazem as refeições e onde crescem e se transformam, é onde aprendem e adquirem competências que lhes vão servir para a vida. A escola para eles é como aquela rotunda que te leva a vários caminhos.

 

E que a que caminhos te deve levar a escola? Deve te levar a um lugar tranquilo e acolhedor, limpo, onde as pessoas estejam motivadas a tornar este mundo num lugar melhor, porque o futuro existe. Porque não devemos transformar o futuro num local sem esperança, sem cor, sem alegria. 

 

Como podemos fazer isso? Olhando de outra forma para o nosso dia-a-dia. 

 

Os pais levam os filhos à escola numa correria, muitas vezes desrespeitando as regras de trânsito e pondo em risco quem atravessa a estrada na ânsia de só se verem a eles, dizem-me que se a escola estiver fechada é um grande problema, que não têm onde colocar os filhos, que também trabalham, e que não  é pouco, e que aqui é que é bom não se faz nada, e quem é que vai ficar com o filho ou a filha? Ansiedade muita ansiedade, apenas isso. 

 

Nenhum me perguntou quantos funcionários somos e o que fazemos? Quais as dificuldades que temos? As pessoas apenas vêem o que querem ou o que lhes interessa. Tal como nos incêndios, apenas viam uma mancha verde, nem sabiam que árvores verdes eram essas. Aqui é o mesmo, conseguem ver umas quantas pessoas de bata, então julgam que são muitas e não se interessam por mais nada. 

 

Isto já nem é tanto um fazer greve por um salário mais alto, é mais por um cansaço extremo que leva à rotura psicológica e física. 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

Conversas da escola - Vá tomar um duche

26.10.17, Alice Alfazema

Colega a atender um telefonema de "alguém" que pretende uma informação:

 

- Vocês amanhã fazem greve? A escola fecha ou não?

- ...não lhe posso responder a isso, porque não sei.

- Mas fecham a escola ou não?

- Não sei responder a isso, porque não sei se as minhas colegas fazem greve ou não.

- Então, quando forem à casa de banho já sabem?

- ...

- Vá, mas é tomar um duche!

 

 

O que têm vocês a dizer sobre este assunto? Deve ou não deve a minha colega tomar um duche? As vossas decisões profissionais também são tomadas na casa de banho, enquanto desenrolam o papel higiénico ou colocam o ambientador com cheiro a rosas?

 

 

Alice Alfazema

Valpaços 1989 - Gentes com garra!

24.10.17, Alice Alfazema

 

A história faz-se de gente que não baixa os braços, aqui fica este texto para memória futura, como forma de homenagem a quem lutou pela terra que ama e por aquilo em que acredita. 

 

 

 

Numa tarde de domingo, largaram todos para destruir os 200 hectares de eucalipto que uma empresa de celulose andava a plantar na quinta do Ermeiro, a maior propriedade agrícola da região.

 

 

À sua espera tinham a GNR, duas centenas de agentes. Formavam uma primeira barreira com o objetivo de impedir o povo de arrancar os pés das árvores, mas eram poucos para uma revolta tão grande.

 

 

A tensão subiria de tom ao longo da tarde. «Houve ali uma altura em que pensei que as coisas podiam correr para o torto», diz agora António Morais, o cabecilha dos protestos. Havia agentes de Trás os Montes inteiros, da Régua e de Chaves, de Vila Real e Mirandela.

 

 

A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.

 

 

«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.

 

 

«A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala», diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil.

 

«Comecei a ler coisas e percebi que o eucalipto nos traria grandes problemas», continua António Morais. «Por um lado, numa região onde a água é tudo menos abundante, teríamos grandes problemas de viabilidade das outras culturas. Nomeadamente o olival, que sempre foi a riqueza deste povo. E depois havia os incêndios, que eram o diabo. São árvores altamente combustíveis e que atingem uma altura muito grande.»

 

Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho. Nunca ardeu. Serafim Riem, o ambientalista da Quercus, diz que até hoje a guerra do povo de Valpaços é um marco, a maior ligação jamais vista no país entre o mundo rural e o ativismo ecológico.

 

«A única maneira de travar os incêndios em Portugal é reduzir drasticamente o eucaliptal e substituí-lo pela floresta autóctone, que não só tem melhor imunidade ao fogo como gera uma riqueza mais diversificada para as populações.»

 

Naquele 31 de março de 1989, o povo uniu-se e, diz agora, salvou-se. «Nós é que tínhamos razão», repetem uma e outra vez, repetem todos. Às seis da tarde, depois de José Oliveira ser libertado, um vale inteiro voltou pelo mesmo caminho e juntou-se no principal largo de Veiga do Lila. Mataram-se dois borregos e um leitão, abriram-se presuntos e deitaram-se alheiras à brasa, houve até quem trouxesse uma pipa de vinho. A festa durou noite dentro e foi maior do que qualquer romaria de Santa Bárbara.

 

 

 Texto de Ricardo J. Rodrigues | Fotografia de Rui Oliveira / Global Imagens

 

 

Retirado de Notícias Magazine, clique para ver o artigo completo.

 

 

 

 

Alice Alfazema 

 

A CRP ainda é a Lei fundamental deste país? A democracia está suspensa? Por onde anda a igualdade de género?

23.10.17, Alice Alfazema

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"...és a maior puta do mundo; pensei que tinha casado com uma mulher séria e casei com uma puta da serra; a mim nunca me deixaste ir ao cú e os outros vão todos; (...); vou-te tirar a casa e no fim mato-te; tenho uma lista de pessoas aquém vou limpar o sebo) em primeiro lugar a ti e és uma mulher morta ".

Extraordinária decisão do TRIBUNAL DA RELAÇÃO DO PORTO, que julgando em recurso um caso de crime de violência doméstica, invoca na argumentação a Bíblia, preceitos da Sharia e o Código Penal de 1886.
Talvez seja altura de oferecer aos Srs Desembargadores um exemplar da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, de 1976, e lembrar-lhes que em Portugal existe hoje um sistema democrático que legal e politicamente torna insustentável a argumentação anacrónica e inconstitucional que utilizam para justificar a sua decisão.

Extraordinário 'pormaior' do caso: marido traído e amante abandonado concertam-se entre si para agredir a mulher que foi 'de ambos'. Esta história parece inventada, mas foi dada como provada em tribunal.

«Acordam, em conferência, na i.a Secção (Criminal) do Tribunal da Relação do Porto:

«(…) Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica. Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.0) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. 
Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida. 
Por isso, pela acentuada diminuição da culpa e pelo arrependimento genuíno, podia ter sido ponderada uma atenuação especial da pena para o arguido X. As penas mostram-se ajustadas, na sua fixação, o tribunal respeitou os critérios legais e não há razão para temer a frustração das expectativas comunitárias na validade das normas violadas
(…)»

 

Processo n.° 355/15.2 GAFLG.P1
Recurso penal Relator: Neto de Moura.

 

No acórdão assinado pelos desembargadores Neto de Moura e Maria Luísa Abrantes (enquanto adjunta).

 

O texto integral do Acórdão do Tribunal da Relação do Porto (violência doméstica, adultério) pode ser lido em: https://jumpshare.com/v/XmGPjJyBg6mJMdehLjp8

 

 

 

Ter em atenção que um dos desembargadores é uma mulher. De referir que estamos em 2017, num país com um Estado laico, segundo a CRP.

 

Nojo.

 

 

 

 

Alice Alfazema