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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Para além dos livros azuis para menino e dos livros rosa para menina

26.08.17, Alice Alfazema

 

Ilustração  Prudence Flint

 

Quando um homem me diz
Que eu sou bonita
Eu não acredito.
Ao invés disso, eu revivo os meus dias no colégio
Onde não importava o quão boa eu fosse
Eu sempre era a menina de bigode

 

Ele não sabe o que é
Crescer com a sua família materna
Quando o seu corpo é o único
Que com orgulho mostra o [cromossomo] X do seu pai
Enquanto o X da sua mãe fica de lado e sente pena
Da sua falta de atitude feminina

 

Ele não conhece a adolescente
Que encheu os seus cantos com
Consolos vazios de
Ser amada por quem ela era – algum dia.
Ele não conhece a hipocrisia.

 

Ele não sabe do mundo que
Diz para você ser ‘você mesma’
E te vende justo e adorável cartão de vergonha
Ao mesmo tempo

 

Ele não sabe da cera quente e do laser
Cujo único propósito é
Substituir a nossa pele inocente
Com a sua própria marca de feminilidade

 

Ele não sabe do descolorante
Que desenraiza o seu robusto cabelo
Em nome da higiene
Higiene que, quando seguida pelos homens,
Faz deles gays e nada masculinos.

 

Ele não sabe como domar as sobrancelhas espessas
E como as monocelhas morrem silenciosamente
Tudo para preservar a beleza
E dos torturantes milagres que acontecem
Dentro das portas marcadas com
SÓ MULHERES

 

Então quando um homem diz que eu sou bonita
Eu lhe dou um sorriso. Um sorriso que fica
Depois de tudo que as faixas arrancaram
E eu o desafio
A esperar
Até os meus pelos crescerem de novo.

 

 

 

Poema de Naina Katarina

 

 

Alice Alfazema 

 

 

Paixão

24.08.17, Alice Alfazema

 

Ilustração Pierre-Emmanuel Lyet

 

 

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente

 

 

Herberto Helder

 

 

Alice Alfazema

Conversas da escola - Sejam bem-vindos à época escolar 2017/2018

23.08.17, Alice Alfazema

Eu sei que ainda é Agosto, mas a lista com as turmas já estão afixadas nos vidros do polivalente da escola. É uma alegria ver os miúdos novinhos vindos da escola primária chegarem com um sorriso estampado na cara minúscula quando percebem a dimensão da escola, quando reparam nas árvores grandes e no imenso espaço onde podem correr e perder-se na brincadeira.

 

Alguns chegam envergonhados, outros já afoitos, outros a medo. Descobrem que há um bar, uma papelaria, um espaço de sala de convívio com mesas grandes e redondas, biblioteca, posto médico, PBX, telefone, tanta coisa, muitos quadros com desenhos feitos por outros miúdos, tudo em grande, grandes vidros, grandes portas, muitas portas com números, muitas salas de aula. Um outro mundo, que agora será também o deles. Os pais com medo, fazem muitas perguntas, e dão as respostas:

 

- Isto é tão grande...

- Tenho medo que ele não saiba onde ficam as salas...

 

Os putos ali ao lado deles exploram o espaço que podem explorar, mas sei que imaginam mil e uma maneira de dar a volta àquele novo mundo. Tão grande...e aonde, ainda não sabem, vai ser este o lugar onde se vão transformar, onde o seu corpo vai crescer e mudar, onde vão fazer novos amigos, onde vão brigar por tudo e por nada, onde se vão apaixonar perdidamente e descobrir que podem sentir borboletas na barriga.

 

Um pequeno exemplar masculino, vem ver a escola e saber qual a sua turma, trás vestido uns calções pelo joelho e um polo azul com uns óculos a condizer, magriço, olha para o jardim, onde existem àrvores, arbustos, relva e flores, e exclama com alegria:

- Ena pá que grande plantação!

 

 

 

Alice Alfazema