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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Entre a escrita e a imagem

15.10.15, Alice Alfazema

Ilustração Mark Elliott

 

Pode-se não recordar os insultos; mas guarda-se deles um amargo de experiência, feia como uma cicatriz. E isso envelhece a alma, torna-a ruinosa e inútil.

 

Ilustração Daniel Mackie

 

A infância vive a realidade da única forma honesta, que é tomando-a como uma fantasia.

 

Ilustração Kristina Swarner

 

 

 As primeiras impressões não são decisivas. Às vezes são fatais mas não decisivas.

 

As frases são de Agustina Bessa Luís, que faz hoje 93 anos. 

 

Alice Alfazema

O meu passeio de Outono com o Ginjas

11.10.15, Alice Alfazema

Num destes dias fui passear com o Ginjas. Ele é um rapaz madrugador, põe a pata em acção e não há quem o pare, raspa, e raspa na porta até alguém muito, muito sonolento se levantar. E eis que abana a cauda, contente, contente. Não sabe se é sábado ou domingo, o que lhe interessa é o passeio. E lá fomos nós pela fresquinha, sentindo a brisa do resto da madrugada, na cara lavada à pressa (ou não lavada). Com os olhos meio esbugalhados, numa tentativa de abertura para uma visão plena. 

 

Levei a máquina fotográfica, com o intuito de tirar belas fotos, para recordar a maravilhosa manhã de Outono, vi-me a fotografar o orvalho e as formigas que ainda enchem de comida o formigueiro. Imaginei o Ginjas em grande plano, pleno de vigor e lustro no pêlo. Vi o castelo que ainda tinha as luzes acesas. Fotografei tudo o que tinha imaginado. 

 

Encontrei vestígios do baile sob a grande Lua cheia. Imaginei quem teria andado nela, se seria bela ou uma desdentada maluca. 

 

Vi os cardos estaladiços do Sol, e as folhas amarelas, e as grandes nuvens cheias de água que vinham do mar, pareciam soldados cinzentos caminhando em linha.

 

Eis aqui a prova de tudo aquilo que vi. 

 

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O castelo, magnífico no cimo do morro, espreitando o dia que mal acaba de nascer.

 

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As nuvens que cavalgam os céus, cheias de vento e de água.

 

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O Ginjas, em alta velocidade, aproveitando o fresquinho da manhã. 

 

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Os cardos que se despediram do Verão.

 

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Os vestígios do baile à grande Lua cheia. 

 

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Os verdes que crescem  maravilhados com a orvalhada. 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

Espantalhos

10.10.15, Alice Alfazema

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O espantalho é uma metáfora do sujeito que se sujeita aos hábitos do quotidiano.

 

No meio do arrozal, o espantalho parecia um homem de verdade. Batista havia caprichado. O chapéu e o terno velho que ostentava tinham vindo da Itália, foram de seu finado avô, que morrera há muitos anos. Tio Davi parou a cinco ou seis metros do espantalho. De longe, só se notava sua cabeça acima da plantação.

– Parece gente – comentou com as crianças. – O toco em que seu pai armou esse espantalho estava ali desde o começo do mundo. É o toco de uma madeira que dura a vida inteira, enquanto existir o mundo ela também existirá.

 

(PORTINARI, Antonio. Portinari menino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980, p.111.)

 

À figura de espantalho, a que se impõe cada acção pensada como de inteligente, mas que no fundo apenas nos remete para o achincalhamento do outro. Pensará, então, que o espantalho estava naquele campo que era seu, no entanto enganou-se, afinal era ele o próprio espantalho. 

 

Não é o fantoche mas o espantalho que te devora. Ao fantoche é-lhe dado voz e acção, ao espantalho é-lhe dado o sol, o vento, a chuva e a caca dos pardais. 

 

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos!

 

Mario Quintana

 

Dei-me conta de que entre um e outro existe a intempérie. 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

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