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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Corte

07.09.15, Alice Alfazema

Ilustração  Sonia Maria Luce Possentini

 

 

Quando somos crianças sentimos que temos todo o tempo do mundo, sentimos as coisas pela primeira vez, a magia da descoberta. À medida que o tempo passa tudo se vai desvanecendo, temos tendência a acreditar menos, a desconfiar, a ter mais medo. Cortamos emoções. Pegamos na tesoura do tempo e cortamos tiras fininhas para nos lembrarmos disto e daquilo. Depois o tempo passa e as tiras esvanecem-se. A tesoura enferruja e perde o corte. Sente-se o tempo a escorrer por entre os dedos. A isto dá-se o nome de crise de meia-idade. Haverá depois uma  idade inteira  onde poderemos deitar a tesoura fora, já não nos servirá para nada. 

 

Alice Alfazema

 

Roubador

05.09.15, Alice Alfazema

roubador.JPG

 

Este roubador, chamado Ginjas, com cinco quilos de peso e para aí trinta centímetros de altura e mais uns quantos de comprimento, gosta de comer coisinhas boas, ração só em caso de desespero.

 

Neste Verão, que é o seu primeiro, já lambeu uma fatia de pizza que ficou esquecida em cima da mesa, já comeu todo o molho, coalhado, de fritar os bifes que estava numa frigideira, também ela esquecida, conseguiu arrancar os alhos que estavam agarrados ao fundo e deitou a folha do louro para debaixo da mesa. A dona até pensou que alguém tinha tido a iniciativa de lavar a dita cuja, pura inocência.

 

Rapinou, também, uns quantos panados de uma travessa, enquanto os donos foram tomar um cafézinho, no entanto teve a bondade de deixar alguns, pois a malta ia para a praia e não tinha mais nada. As suas habilidades roubadoras levaram-no a arrancar de uma mochila este maravilhoso croissant de chocolate, que alguém da casa tinha intenção de comer sozinho, num momento oportuno, no acolhimento do seu quarto.  Ginjas o farejador deitou por terra tal acto futuro. Mas foi apanhado, porque o saco era barulhento, paciência, fica para a próxima.

 

Alice Alfazema 

 

 

O menino

04.09.15, Alice Alfazema

Imagem daqui.

 

E o menino estava deitado na areia da praia, quase como se estivesse a brincar com as ondas, parecia adormecido. Vestidinho com cuidado, cabelo curto, tal como nos artigos de publicidade. 

No entanto este menino é um vestígio da guerra, de um jogo do empurra, da incompreensão entre os povos, do desespero, da ganância, da indiferença, da religião, é o resultado da soma da solidariedade na sociedade, é a prova de inteligência neste nosso maravilhoso planeta.  

O destino ficou-se pela beirinha daquela praia. Será então impossível navegar por um mundo melhor? O máximo que conseguimos fazer é acolher refugiados? De que nos serve sermos uma espécie inteligente se criamos e vivemos num mundo estúpido.

 

Alice Alfazema

 

Pressupor

04.09.15, Alice Alfazema

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A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.

 

Fernando Pessoa, Livro do desassossego

 

Alice Alfazema

A cada esquina

03.09.15, Alice Alfazema

 

- Olhe,  Daniel. O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira, ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.

 

Fermím em A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón.

 

 

 

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