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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Dia do trabalhador

01.05.15, Alice Alfazema

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Hoje dia do trabalhador encontrei estas excelentes palavras escritas por Luís Naves, no Delito de Opinião, 

As pessoas vivem vidas confortáveis no constante receio de brotar do caos um elemento que possa virar o barco onde viajam sentadas. Devemos defender as nossas cidades e erguer muralhas bem fortes. Teoricamente, temos  pena dos pobres, até enfrentarmos um verdadeiro pobre. A miséria não é para sentir ou cheirar, é para admirar à distância, como quem observa a diversidade no jardim zoológico, lugar de exibição que apenas serve para confirmar a superioridade da nossa própria espécie. Assim, o que vemos na televisão sobre deserdados funciona como os documentários da National Geographic, a cores, em alta definição, suficientemente exótico e distante para nos interessar. Não gostamos da realidade, apenas da irrealidade. Os bárbaros são os diferentes; nós somos os indiferentes. Amontoamos belas palavras sobre a dor das vítimas, a inépcia dos desadaptados, mas queremos os nossos direitos e ficamos espantados quando os miseráveis não se levantam da sua miséria.

Assisti ontem a uma cena interessante, mas sem moral ou sentido do qual se possa tirar uma conclusão: um homem de aspecto miserável, pedinte mal-cheiroso, estendia a mão ao fundo das escadas da boca do metro, abrigado da chuva miudinha. A funcionária do metropolitano veio imediatamente e mandou-o sair dali. Que fosse estender a mão à chuva. Na véspera, aquela mesma funcionária estivera em greve, a defender os seus direitos.

 

Alice Alfazema

 

1 de Maio de 2015

01.05.15, Alice Alfazema

Hoje apetece-me flores:

Flores pelos que já foram, flores para mim, flores para quem quiser.

As flores que falam sem palavras, para quem as letras nada dizem.

Onde os amores estão perfeitos, mudos e cheios de cor.

É o Maio que entra em tons cativantes, no céu as nuvens pintadas a carvão, nas ruas os ramos das árvores balançam, agitando o verde novinho das folhas.

Colhi estas flores por aí, neste mundo virtual, tal como quem colhe nos muros dos outros que ficam perto da nossa rua, ficarão aqui até que murchem. 

 

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

 

 

Alberto Caeiro 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

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