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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Como um rio

05.05.15, Alice Alfazema

Ilustração Barbara Brancher

 

Sempre permaneça aventureiro.

Por nenhum momento se esqueça de que

a vida pertence aos que investigam.

Ela não pertence ao estático;

Ela pertence ao que flui.

Nunca se torne um reservatório,

sempre permaneça um rio

 

Osho

 

 

Alice Alfazema

 

Os estendais

04.05.15, Alice Alfazema

Ilustração Sarah Davis

 

Hoje está um dia de vento. Lá fora os estendais andam num rodopio. As roupas lavadas sacodem-se numa revoada colorida. O perfume do amaciador espalha-se no ar, confunde-se com o cheiro da terra que se prepara para ser molhada. Prendo bem as molas na corda do estendal, não quero perder nenhum pássaro colorido. A roupa lavada ergue-se ao vento avança e recua, baila. Somos nós que bailamos sem corpo. 

 

Alice Alfazema

 

Outras Mães

03.05.15, Alice Alfazema

 Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
                                                       [pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

 

José Jorge Letria

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.

 

Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.


Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.


Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.


A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

 

 

Joaquim Pessoa

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

Opinião de um homem que pensa que sabe o que é ser mãe

03.05.15, Alice Alfazema

Crónica de um sacerdote que pensa como quem vive na era Medieval, onde as mulheres, mesmo que tenham apenas doze anos e tenham sido violadas devem ser mães, porque é um desígnio, maravilhosamente inventado por quem não dá o devido valor àquilo que deveria ser a vida.  Escreve como quem come uma salada de alface com larvas, tudo é bom até chegarmos às larvas, há quem goste, segundo alguns comentários. Se vivessem no verdadeiro mundo real, talvez compreendessem o que quer dizer - ser mãe e ser filho. É uma vontade e um gosto, não uma imposição, ainda por cima muito sofrida, não entendida, vivida na miséria, por uma criança de apenas doze anos. 

 

Alice Alfazema

Se

02.05.15, Alice Alfazema

Ilustração Yiyong Zhu

 

Se alguém estiver a observar-te, consegues fugir dessa pessoa, mas se ninguém estiver a observar-te, não consegues fugir de ti próprio. 

 

Shunryu Suzuki

 

 

 

Alice Alfazema