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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

As mãos e os beijos

14.02.15 | Alice Alfazema

Ilustração Ines Vilpi

 

As mãos ficaram ligadas aos beijos, trespassaram lugares desconhecidos, foram cúmplices de momentos inesquecíveis.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

 

Álvaro de Campos

 

Alice Alfazema

Cupido

12.02.15 | Alice Alfazema

Ilustração Mo Chun

 

 estávamos a grelhar o anjinho cupido e o
anjinho cupido grelhado é como um
franguinho encolhido sem muita diferença
resolvemos comer o amor porque a
fome era tanta e o amor um desperdício

as flechinhas, com as quais o
anjinho cupido se preocupava tanto, serviram
para fazer o lume, arderam bem e
com facilidade. íamos meter as
flechinhas no cu para as mandar às
urtigas e vingarmo-nos de algum modo, mas
o lume era essencial e a fome grande e
o anjinho cupido tão tenrinho, nós
queríamos mesmo era comer

de barriga cheia sentimos o coração
mirrar, mas nada que não pudéssemos
esperar. foi até engraçado estarmos de
papo para o ar, o sol quentinho, uma brisa
fresca a vir do norte, um sossego dos
bons, e sentir no peito um ratinho a emagrecer
como se tivesse feito exercício e ganho
juízo. comer o amor dá saúde, pensámos, e
a vida de ali em diante tem sido só
graça

a mim, a barriga do cupido soube-me
bem e curou-me a tristeza
a mim, os braços do cupido souberam-me
bem e curaram-me a tristeza
a mim, o rabinho do cupido soube-me
bem e curou-me a tristeza
curado da tristeza, compreendo agora, tudo
me sabe bem

 

Valter Hugo Mãe

 

 

Alice Alfazema

Campo aberto

10.02.15 | Alice Alfazema

 Pintura  Andrei Belichenko

 

Tudo frutificou: o campo estava aberto,

deu aconchego e raiz a todas as sementes.

 

Sebastião da Gama

 

Olhai os lírios do campo que já começam a florir e as amendoeiras que despertam deste Inverno frio. Erguem-se esbeltas as arvores de folha caduca, esperam por nova vestimenta, deixam entrar o Sol, ainda fraquinho, e tu que esperas, depois deste frio nos deixar?

 

Alice Alfazema

 

 

 

É tudo

06.02.15 | Alice Alfazema

bote.JPG

 

Vejo o rio, manso e azul, corre para oceano, talvez para se sentir liberto das margens, para mergulhar numa outra dimensão. Na barra dá por si mais salgado. Ao longe o bote e o homem que segura o leme. As ondas lisas libertam pequenos pedaços de espuma. O motor ronrona. Calmaria.

 

Alice Alfazema

Mudança

04.02.15 | Alice Alfazema

Ilustração Emma Ersek

 

Trazes os brincos compridos,

Aqueles brincos que são

Como as saudades que temos

A pender do coração.

 

Fernando Pessoa

 

Coloquei os brincos e vi reflectida no espelho a minha imagem, como pode um pequeno pormenor mudar tanta coisa? Julgamos muitas vezes que as mudanças são feitas de grandes coisas, quando afinal basta um pequeno momento no tempo para mudarmos tudo.

 

Alice Alfazema

 

Hoje

01.02.15 | Alice Alfazema

condição.JPG

Hoje começa Fevereiro, um mês pequenino, mas grande foi a minha surpresa ao ver isto, fiquei feliz, gostei das palavras, souberam-me bem, tal como quando tenho sede e bebo água. 

 

Deixo aqui um poema de um dos poetas da minha terra, Sebastião da Gama. Obrigada, Helena, pelas palavras bonitas que me deixou. Obrigada, também, a todos os que me deixam as suas palavras bonitas por aqui. 

 

Constrói ao menos

qualquer coisa efémera.

Pois mais não podes ser,

sê ao menos efémero.

 

Grava os passos na areia,

desenha sobre a estrada

teu vulto.

É melhor do que nada.

 

A desfazer-te o rastro

virá o Mar, é certo.

Virá, é certo, a Noite

beber a tua sombra.

 

Efémero? Serás...

Mas presente

no Mar, eternamente

na Noite, para sempre.

 

Sebastião da Gama

 

Alice Alfazema

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