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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Um bailado de cores

26.02.15 | Alice Alfazema

Ilustração Philippe Loubat 

 

Habituamo-nos a olhar as coisas

nos mesmos lugares.

O bailado mostra-se, através de nós.

Deitamos cartas na mesa, as coisas ficam 

por dentro das mãos. 

 

Maurícia Teles

 

Alice Alfazema

 

Leitos rugosos

25.02.15 | Alice Alfazema

árvore.JPG

 

Serão os braços da Árvore Neptúnica

metamorfose de um feto abrindo

as flores do Éden nas mãos da criança.

 

Os dias, lentos,

baloiçam o fruto.

 

O poema 

percorre leitos rugosos

salta despenhadeiros

encosta o rosto às falésias

e vem poisar suavemente

na foz do símbolo.

 

Poema é sulco na terra,

raiz agarrada ao branco

de uma folha imaginária

na árvore dos dias por viver

 

Maurícia Teles, in Sonho de Vidro

 

Alice Alfazema

O dragão

22.02.15 | Alice Alfazema

Imagem daqui.

 

Não acordes o dragão, mantém-te em silêncio e sossegado, não dês nenhum passo, nunca acordes o bafo daquele que te chateia,  vive na paz do dragão, quando tiveres perto da tua morte verás que nada disto que foi dito sobre o dragão terá valido a pena. Vive.

 

Alice Alfazema

 

Imaginação

18.02.15 | Alice Alfazema

Ilustração Camilla d'Errico 

 

Num mundo sem arte, as cores teriam pouco ou nenhum valor, apenas serviriam para chamar a atenção. No desprezo pela arte e pela imaginação perdemos um dia-a-dia motivador, ao perdemos isso começamos a perder a nossa auto-estima e nela se vão todos os nossos desejos. Vemos assim como está este nosso mundo, com uma perda gritante de imaginação, onde muitos nos levam a pensar que existem apenas os caminhos que nos são indicados por eles, quem passas a ser se deixares que outros escolham por ti? Que país é este que leva a espinha numa curvatura doida. Os velhos que estão no poder, já têm tanto bolor que nem um dia escaldante de Sol os consegue regenerar. Perderam a cor e o brilho e arrastam discursos de treta. Vejo nalguns o espelho de outros que conheço pessoalmente, teimosamente reinantes, apesar de gagás querem manter-se na cadeira, bebendo água do Luso, aspirando o cheiro dos ramos de flores sobre a mesa, ostentam os sapatos bem engraxados, e as frases banalizadas que dizem, conseguem que recorde os aromas de um funeral. Vejo os presidenciáveis e eis-me de novo nesse aroma.  Pudessem as melancias se transformarem em borboletas e tudo seria mais fácil. 

 

Alice Alfazema

Uni-verso

17.02.15 | Alice Alfazema


Ilustração Catherine G McElroy

 

Se o Universo,
une o Verbo,
une o verso,
mistura o inverso do avesso
do mundo externo...

 

Se estamos imersos num mundo interno
repleto de infernos e invernos
Estamos enfermos em formas quadradas,
projetadas e padronizadas?
Ou somos criaturas criadoras,
receptivas e receptoras,
que harmonizam nossas próprias vibrações coloridas
junto ao arco-íris?



Às vezes penso, como os egípcios,
o homem é um prisma transparente
e sua vida é a escolha das sete cores, ou espectros,
ou vibrações...
A Luz há de brilhar.
o diamante há de polir-se.
E o homem pinta, canta,
dança, nos caminhos da luta,
para um dia emanar
a luz áurea lilás.

 

Hermeto Marcius

 

Alice Alfazema

As palavras de Luísa Dacosta

16.02.15 | Alice Alfazema

 

 

Vou deixar aqui estas palavras, para que não morram, para que sejam levadas e compreendidas, para que as vozes de fêmea se oiçam e as suas perspectivas sejam relacionadas com o socialmente imposto nesta sociedade, ainda, machista. 

 

Lamento sair desta vida bastante desiludida. Por exemplo, em relação à alegria com que festejei o fim da II Guerra, a pensar que nunca mais havia guerras, e que vinha aí a solidariedade, a democracia e a liberdade para todos. Mas não. Estamos num mundo criminoso em que 70 por cento da população mundial não tem acesso à água, à comida, à saúde, à educação. Sobretudo, incomoda-me partir com a certeza de que a parte mais esmagada deste mundo é a mulher. Isso dói-me.

As palavras são sementes. São valiosas, provocam e despertam reacções, movimentam mentes.

 

Tenho uma grande admiração pela figura de Cristo, que acho uma figura extraordinária, muito interessante. Normalmente as religiões estão ligadas a aspectos políticos, mas a figura de Cristo não está. É uma figura independente do social e do político. É uma doutrina puramente espiritual. Há uma grande capacidade de dádiva e perdão, que é o que me interessa mais. A igreja não me interessa nada. A igreja, com Constantino, tornou-se uma religião de Estado, o que é um crime. Uma religião de Estado é uma coisa aberrante.

Aquilo que fazemos interessa. Olhar o outro, despertar para um mundo melhor, acreditar. Tantas vezes desperdiçamos a nossa energia naquilo que nos torna tristes, tantas que poderíamos transformar isso numa força de impulso positivo. 

 

A vida ensinou-me que não podemos viver sozinhos. Ensinou-me que não podemos viver sem o bafo humano e que devemos fazer tudo para lutar por isso.

Devemos aproveitar as palavras e com elas bailar. Acreditar não é uma coisa lamechas, acreditar é poder transformar.

 

Texto retirado do Jornal Expresso.

 

Alice Alfazema

 

 

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