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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Zona de conforto

04.01.14, Alice Alfazema

 

Pintura  John George Brown 

 

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

 

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

 

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

 

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

 

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

 

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

 

Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo, 1945.

 

 

Alice Alfazema

Vírgulas

04.01.14, Alice Alfazema

A cada dia que passa dou mais valor à simplicidade, dela nasce a criatividade mais pura. 

 

 

A observação das coisas e dos sentimentos, num modo desprendido de interesses. 

 

Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

 

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

 

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

 

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

 

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

 

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

 

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

 

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

 

Mário Quintana

 

 

Não acredito em linguagens sofisticadas, mas em vírgulas descontroladas que me levam ao firmamento. 

 

 

Fotografias e confecção dos acepipes - Maria Tofu.

 

 

Alice Alfazema

Sensível recalibragem

03.01.14, Alice Alfazema
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.



                                               Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Ilustração Csil Cb

 

 

 

Alice Alfazema

A minha escola

02.01.14, Alice Alfazema

Hoje a escola esteve vazia, de gritos, de palavrões, de risos, apenas o temporal pairava nos pátios.  O telefone está calado. A ventania levou as últimas folhas das árvores, deixou-as agarradas ao chão, coladas e irremediavelmente inertes. Dos telhados emergiram os últimos aviões de papel, ficaram pregados ao chão. Os jacintos já nasceram, espera-os a decapitação, mal a molhada entre na segunda-feira. As minhocas refugiaram-se debaixo das folhas molhadas. Nasceram alguns cogumelos. A trepadeira continua a comer os bichinhos da nespereira. Um pesadelo os montes de folhas molhadas. Os cortinados novos já estão nas janelas. O vento sopra e os cortinados abanam, não temos certificado energético. Amanhã haverá mais um dia de silêncios. Segunda-feira já é outra estória.

 

Alice Alfazema

Sobre a escrita

02.01.14, Alice Alfazema

 

Ilustração Michael Creese

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

 

Pedro Oom

 

 

Alice Alfazema