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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O que resta?

15.06.13, Alice Alfazema

 

Ilustração Sonia Maria Luce Possentini

 

Ouvir as palavras. 

 

 

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história. 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

 



Vinicios de Moraes



Alice Alfazema

Tomada de consciência

14.06.13, Alice Alfazema

 

Ainda há gente que não desiste, que não se arrasta na esperança e carrega ela consigo. É desta gente que o mundo precisa, é desta gente que não se fala, é desta gente que vem estas histórias. Em vez do gás lacrimogéneo, o som do piano enchia a praçaQue a praça seja longe, que as gentes sejam outras, a esperança é sempre a mesma. Que as emoções sejam diferentes, que os valores sejam outros, a vida é feita cá e lá deles. Talvez, cheguemos tarde demais à compreensão da tomada de consciência, ou seja, apenas, quando doer. 

 

Alice Alfazema

De quem é o céu?

13.06.13, Alice Alfazema

 

 

Ilustração Susan Estelle Kwas

 

Dantes era tudo mais simples, os campos eram nossos, de manhã até à tardinha. As brincadeiras, os baloiços feitos nas árvores, ficavam lá de um dia para outro, de semana para semana. As ideias, eram de todos, agora as ideias são de quem as tem primeiro. Há que estar sempre a pensar, até encontrar alguma ideia em que ninguém, ainda, tenha pensado. É um mundo estranho. Os campos têm dono. As ideias têm dono. O céu, ainda é azul. Talvez venha alguém pintar o céu de outra cor, para dizer que ele é seu. Resta esperar que respirar não seja ideia igual.

 

 

Alice Alfazema

O fundo do mar

13.06.13, Alice Alfazema

 

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

 

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

 

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

 

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


 

Sophia de Mello Breyner Andresen


 




Alice Alfazema