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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O dia da Terra

22.04.13, Alice Alfazema

Os dias são todos da Terra, por ela passam os rios e os mares. O Sol e a Lua. O vento e a chuva. Relâmpagos. O calor e o frio. A morte e a vida. As cores e as flores. As árvores. Os peixes. As aves. As serpentes. Os linces. Os lobos. Os gatos. As osgas. As formigas. E os outros. E os outros.





O búfalo com chifres de prata

poisa no nenúfar 

no nenúfar do exílio

búfalo ou borboleta

 

Jorge Lauten



Alice Alfazema

Colarinho encardido

21.04.13, Alice Alfazema

Eu compreendo perfeitamente quem trabalha dando exercício ao corpo, eu própria já o fiz. Já trabalhei muito, numa linha de produção, durante seis meses. No entanto, o trabalho que tenho agora cansa-me mais, vocês podem descansar o corpo que no outro dia estão recuperadas, com a cabeça não é o mesmo.


- O que eu gostava de ter um emprego assim.

- Mas, ganham uma miséria!

- Então, mas não levam nada para fazer em casa.

- (E as dores? Ficam no trabalho?)


Agora, em algumas empresas existem cacifos especiais para as pessoas que trabalham de forma não intelectual deixarem os seus cérebros e as dores. No fim da jornada podem recolhe-los sem prejuízo dos mesmos.

 

Vejam o burro, Camaradas

Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa

Tem quatro pernas de andar aos saltinhos

Duas orelhas ouvidouras de ouvir tudo bem

Dois olhos espertos cheios até às lágrimas de paciência

O nariz do focinho muito fresco e macio.

 

O burro é burro, Camaradas?

Quem diz que é burro e despreza este companheiro?

Quem quiser ofender-me não me chame de burro

Quem quiser ofender-me não seja tão amável!

Quem quiser ofender-me inventa outra palavra

Porque chamar-me burro lembra-me burro mesmo

E não posso magoar-me com simpatia.

 

Não estou a defender o amigo útil somente

Não estou a pensar bem deste que faz o seu esforço e puxa

Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte assim.

Há coisas desde companheiro para pensar melhor e espalhar.

Falo agora somente só pela simpatia.

 



Mutimati



Alice Alfazema

Com outros olhos

20.04.13, Alice Alfazema
 
Já aqui tinha falado que os outros nos vêm de forma diferente daquela que nos vemos, entretanto vale a pena ver este vídeo e pensar um pouco sobre aquilo que pensamos de nós próprios.
 
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Alice Alfazema

A ousadia da pele e do osso

20.04.13, Alice Alfazema

 

Imagem daqui

 

Anda por aí meio mundo preocupado com a celulite, que apesar de magras as modelos, neste caso brasileiras, têm celulite. Dizem-se chocados. O que mais me choca é a extrema magreza e conseguir imaginar a fome e o sacrifico destas mulheres.  Esta foto foi tirada num conceituado desfile de moda em 2013.  Poderá ela ter sido inspirada em Auschwitz?

 

O tempo vai passando, os anos, as décadas, os séculos e os milénios. E o tempo vai passando, depressa, devagar, rápido, na mesma.

 

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,

Fundado numa rocha, à beira mar...

Donde se avistam lívidas colinas,

E se ouve o vento nos pinhais pregar.

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

 

Nesse triste palácio inabitável,

As janelas sem vidros, contra os ventos,

Batem, de noite, em coro miserável,

Lembrando gritos, uivos e lamentos.

Nesse triste palácio inabitável...

 

Só resta uma varanda solitária,

Onde medra uma flor que bate o norte,

Sacudida de chuva funerária,

Lavada de um luar branco de morte.

Só resta uma varanda solitária...

 

Como nessa varada apodrecida

Em minha alma uma flor também vegeta...

Toda a noite de ventos sacudida,

Íntima, humilde, lírica, secreta,

Como nessa varanda apodrecida...

 

Gomes Leal




Alice Alfazema

 

 

Ânsia

17.04.13, Alice Alfazema


Na semana passada um pardal entrou na minha cozinha, já era noite e o esquentador estava acesso, mesmo assim, o pássaro saiu de dentro dele ileso, não sei como, mas saiu. Escapou à panela que estava ao lume e voou pela casa. Apanhamo-lo. Fizemos, então, de uma caixa de papelão a sua casa de dormir, não mais se mexeu. 


No outro dia, bem cedo, na hora em que os pardais acordam e se espreguiçam, levámos a caixa para a rua, nenhum movimento lá dentro. Na rua o chilrear dos pardais ecoava no ar. O sol sorria. Mal abri a caixa um vibrante par de asas deu um salto para o céu. Veloz, voou em direcção às árvores e eu fiquei ali a olhar aquela vontade de liberdade. 




Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade 
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!




 Antero de Quental, Redenção.




Alice Alfazema