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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

EN 125

05.08.12, Alice Alfazema

 

Foto colhida aqui: Marco Alfha Fotografie



A rapariga está sentada na cadeira de plástico branca, na sombra de um enorme pinheiro, por trás a casa, já velha, mas ainda, pintada de branco. O sítio fica num pequeno cruzamento, de uma estrada movimentada, do outro lado da estrada, duas outras mulheres andam de um lado para outro. Agarram nas malas que trazem ao ombro e seguram-se nelas como se fossem as suas saídas de salvação.


A rapariga do outro lado da estrada está vestida de cor de rosa. Afundada na cadeira, com o telemóvel no colo, está dispersa nas mensagens que manda e recebe. Pergunto-me, de que falarão? Tem o cabelo loiro, muito claro, e parece-me estrangeira, talvez do leste. Tem um especto muito novo - penso - que situação lhe terá levado até ali? A ela e às outras duas mulheres que estão do outro lado da estrada.


Não são as primeiras mulheres que vejo a prostituírem-se, mas aquele ar descontraído de adolescente faz-me pensar em que situações terá esta rapariga de se submeter e se merecerá a pena o sacrifício da sua juventude.


Olhando o outro lado da estrada poder-se-á olhar o seu futuro, e o declínio da sua beleza, dos seus sonhos de menina. As pessoas passam alheias, talvez, olham para o lado, haverá dizeres e mal dizeres, compreensão e incompreensão. Os clientes podem parar a qualquer momento, o chulo também. Na estrada o transito continua, a vida também, o pinheiro continua testemunha e a casa já velha palco de cenas que a sociedade desconhece.



Alice Alfazema

Regresso

03.08.12, Alice Alfazema

 

No regresso há o reencontro com as pequenas coisas do dia a dia, há uma caixa de correio cheia, e as notícias das quais nos afastámos. São diversos mundos no mesmo mundo. Paralelos, mas tão longe uns dos outros. Tal como as andorinhas é necessário voltar e reconstruir aquilo do qual nos afastámos, entrar na rotina, no entanto, as paisagens parecem diferentes, as pessoas também, há outros pormenores que parecem emergir no mesmo padrão que nos era tão conhecido, há uma preguiça, que se agarra como se fosse uma outra pele. E tu levantas-te e andas como se andasses na lama, com passos lentos e difíceis de dar, queres voltar, agarrar o tempo, mas ele foi-se.

 

 

Alice Alfazema

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