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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Entre o rato e o elefante

19.08.11, Alice Alfazema

 

 

Olhando daqui as nuvens parecem pedacinhos de algodão que flutuam num imenso azul…

 

Olhando o mundo à luz do Sol, ele parece que nunca mudou, apesar do que dizem por aí. A grande diferença entre a história passada e a presente é a de que, agora vivemos com coração de rato, quando deveríamos viver com coração de elefante. Neste modo tão apressado: de sentir, de querer, de ter, de agir…

 

Hoje neste mundo apressado em apenas vinte e quatro horas podemos ter emoções extremas, acções rápidas sem pensar em consequências ou imprevistos, vive-se ao milésimo, o segundo é agora uma ironia, esquecemos constantemente que não somos máquinas, queremos mais e mais, numa angústia de fazer o impossível, num inferno de dia-a-dia.

 

Quando a angústia trespassa o corpo e aí se transformando em doença, em cansaço, aí somos obrigados a desacelerar.

 

Bem, olhando daqui, o céu ainda continua azul e, as nuvens continuam a parecer pedacinhos de algodão - afinal o mundo pode ser maravilhoso.  

 

 

 

Alice Alfazema

Os filhos não nascem sozinhos

12.08.11, Alice Alfazema

 

 

Há uma tendência para falar do outro, dar opiniões que não foram pedidas, há um desleixo total de valores e de respeito, há uma frieza incontornável, em que se culpam uns e outros, há uma nulidade de emoções.

 

Os filhos não nascem sozinhos, a sociedade não é feita de um só ser, a culpa não é solitária, a culpa é de todos, da indiferença com que se vive os sentimentos, daquilo que se passa ao outro, daquilo que queremos, daquilo que os outros querem, da vergonha de se ser, da vergonha do que se foi, da vergonha do que se irá ser, de não ter vergonha, de não ter medo, de ter medo, de não ter coragem.

 

O tempo passa e o arrasta neste e naquele dissabor, num mar de ninguém, em que a transmissão de sentimentos é feita por máquinas e para máquinas, amam-se sem compromisso, num contrato escrito, esquecem-se da sua condição humana, da dor, do amor, alastram dentro de si mundos rebeldes que pensam dominar, tal como nos jogos, mas a vida não é um jogo, não é virtual, não é banal e eles ainda não o sabem.

 

 

 

 

Alice Alfazema

Adivinha

11.08.11, Alice Alfazema

 

 

É uma escada em caracol

e que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

mas nunca passa do chão.

 

Os degraus, quanto mais altos,

mais estragados estão.

Nem sustos nem sobressaltos

servem sequer de lição.

 

Quem tem medo não a sobe.

Quem tem sonhos também não.

Há quem chegue a deitar fora

o lastro do coração.

 

Sobe-se numa corrida

Correm-se p´rigos em vão.

Adivinhas-te: é a vida

a escada sem corrimão.

 

 

David Mourão-Ferreira

 

 

 

Alice Alfazema

Portugal ≠ que futuro

11.08.11, Alice Alfazema

 

A falta de ambição, a resignação o mais não sei o quê...é a isso que se devem estas situações:

 

 

Sendo Portugal o terceiro maior consumidor  mundial de peixe por habitante, a seguir ao Japão e à Islândia, não se compreende porque produz menos toneladas de aquacultura, em relação com a Republica Checa, um país interior e sem mar.

 

Portugal possui uma zona exclusiva por onde passa a maioria do comércio marítimo para a Europa, mas tem menos de quinze navios de marinha mercante - em 1970 possuia cento e cinquenta e dois navios. 

 

Nos grandes sectores marítimos tradicionais - transportes marítimos, portos e construção naval - Portugal gera um valor três vezes inferior à Bélgica, um país com dimensão de população semelhante e com menos 100 km de costa.

 

 

"No mar e na agricultura temos um regresso ao básico, a actividades que o país precisa para crescer, mas que abandonou e em relação às quais até criou um certo estigma."

 

Tiago Pitta e Cunha

 

 

 

O estigma que se criou em relação a certas profissões leva a que, quem nelas trabalhe seja desvalorizado, um assunto que precisa de uma nova visão.

 

 

 

Alice Alfazema

A escola é o espelho da sociedade

10.08.11, Alice Alfazema

 

 

"Há uma tendência cultural de facilitismo. O cumprimento de deveres é fundamental. A escola é o espelho da sociedade e deve dar o primeiro sinal. Escola é exigência, esforço e trabalho. Se isso não estiver incorporado não vamos no bom sentido para o desenvolvimento do País."

 

 

 

João Dias da Silva

 

 

Alicealfazema

 

Instintos gerais

08.08.11, Alice Alfazema

 

 

 

 

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é a tua

Porque nem sorte se chama.

 

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

 

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

 

 

Fernando Pessoa

 

 

Alice Alfazema

O rio

07.08.11, Alice Alfazema

 

 

 

 

Do novelo emaranhado da memória,

da escuridão dos nós cegos,

puxo um fio que me parece solto.

 

Devagar o liberto,

de medo que se desfaça entre os dedos.

 

É um fio longo,

verde e azul,

com cheiros de limos,

e tem a macieza quente do lodo vivo.

 

É o rio.

 

Corre-me nas mãos,

agora molhadas.

 

Toda a água me passa entre as palmas abertas,

e de repente não sei se as águas nascem de mim,

ou para mim fluem.

 

Continuo a puxar,

não já memória apenas,

mas o próprio corpo do rio.

 

Sobre a minha pele navegam barcos,

e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.

 

Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como apelos imprecisos da memória.

 

Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.

 

Ao fundo do rio de mim,

desce como um lento e firme pulsar de coração.

 

Agora o céu está mais perto e mudou de cor.

 

É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.

 

E quando num largo espaço o barco se detém,

o meu corpo despido brilha para debaixo do sol,

entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.

 

Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.

 

Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.

 

Imóvel,

espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas.

 

Então,

corpo de barco e de rio na dimensão do homem,

sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.

 

Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.

 

Haverá o grande silêncio primordial quando as mão se juntarem às mãos.

 

Depois saberei tudo.

 

 

 

José Saramago

 

 

 

Alice Alfazema