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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Conversas da escola (6)

28.05.11, Alice Alfazema

Aos treze anos, carenciado, escalão A.

 

- Onde vais?

- Vou lá fora...

- E podes ir? Tens autorização?

- Tenho...

- De quem?

- Do meu pai, ele autoriza-me a ir à rua, nos intervalos, fumar.

- ...

 

 

Alice Alfazema

 

 

Produtos de Portugal (1)

27.05.11, Alice Alfazema

 

 

 

Arroz doce

 

1 litro de leite

2 dl de água

1 dl de arroz

200 g de açucar

Canela em pau e em pó

1 casca de limão

1 colher de banha

 

Põe-se o leite a ferver com um pau de canela e uma casca de limão, muito fininha.

Coze-se o arroz, sem lavar, em 2dl de água com uma pitadinha de sal. Junta-se o leite a ferver e deixa-se cozer durante vinte minutos, sem parar de mexer com uma colher de pau.

Junta-se o açucar e deixa-se ferver até dissolver completamente. Ao retirar do lume, junta-se a banha e mexe-se.

Deita-se num prato de serviço, deixa-se arrefecer e enfeita-se com canela em pó, fazendo desenhos.

 

 

in,Doçaria tradicional do Alentejo, Maria Antónia Goes

 

 

Alice Alfazema

Sem sofismas

26.05.11, Alice Alfazema

 

 

- Que vai ser hoje, ti Zé? - perguntou um dos vendedores, com carinho.

- Queria um pãozinho saloio, macio.

- Aqui o tem. Não poderia estar melhor.

- Minha senhora, vai uma frutinha fresca... - gritava, para Ana, uma vendedora.

- Escolha-me um cachinho de uvas. São boas?

- À confiança, minha senhora. O ti Zé é nosso cliente há muitos anos... não o deixaria ficar mal visto.

 

A felicidade estampada no rosto daquela mulher simples não pôde deixar de contagiar e impressionar a Ana, que se sentia também feliz, por confirmar a amizade que nutriam pelo amigo.

 

- O Zé é muito querido por estes lados... - mais uma vez, sem que se apercebesse, exteriorizava um julgamento!

- É verdade. Vou comprando por aqui algumas coisinhas... e sempre se acaba fazendo amizades.

- De facto. Todos parecem felizes por o ver...

Com aquele jeito humilde que o caracteriza (cabeça ligeiramente inclinada para a esquerda, testa levemente franzida e olhos baixos), o Zé observou:

 

- Por vezes, procuramos a amizade entre as pessoas erradas; junto à sofisticação, quando na verdade, ela se encontra ali mesmo ao lado, entre pessoas simples que nada esperam em troca, a não ser um cumprimento digno, uma palavra amiga, sem sofismas.

 

 

 

in, O caroço da manga, Augusto Carlos

África

24.05.11, Alice Alfazema

 

Pintura de Mário Tendinha

 

O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões
era o melhor assador das redondezas.

As estórias do Sekulu Luíji
eram poemas encantados
que nenhum poeta consagrado
haverá algum dia de escrever.

O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões.
As suas estórias eram encantos
que nem todos sabiam escutar...
era o melhor contador de estórias
das redondezas: – Ólusapò wá...
ólusapò wá kandimba kwénda hósi...

Um dia o Sekulu Luíji desapareceu.
O Sol e a Lua somaram os dias...
e o Sekulu Luíji não mais voltou
(nunca mais haveria de voltar).
E as estórias só desapareceram
contadas na boca do Sekulu Luíji.
As estórias, o cerne e alma delas,
ficaram retidas, porém, na ventania,
voz oral do vento que nem muloje
consegue fazer calar no feitiço.

– Xé mano, sente só, Sekulu Luíji
desapareceu. Foi karkamano
foi karkamano que pegou
foi karkamano que matou
Sekulu Luíji – aiuê, aiuê, Suku yanguê!
Murmurava o povo no cicio da brisa medrosa.

O Sekulu Luíji nunca mais voltou
nunca, nunca mais... nunca mesmo.

Mas à noite, nos meus sonhos,
quando volto de novo a ser candengue,
Sekulu Luíji vem contar-me estórias
e ri muito, um riso muito cheio de vida,
um riso a fazer bailar o ouro das estrelas
como no tempo em que me ensinava,
na mangonha das tardes, a xingar em umbundu
sob o olhar reprovador e muxoxo censura
dos kotas e outros sekulus sisudos.

E nos meus sonhos, quando ele ri muito,
muito de fazer bailar o ouro das estrelas,
a sua boca solta-se no algodão todo sorriso de marfim.
Ele é um anjo negro na plumagem alada do brilho
a reluzir, a brilhar uma luz tão intensa e tão forte
que a noite do sono se transforma num dia de sol.

As estórias que ele me conta nos meus sonhos
transformo-as eu, depois, em versos e poemas acontecidos
no cetim onírico da poesia que timidamente faço acontecer.
Mas são pobres os poemas acontecidos perante as cores
e missangas, riquezas e silêncios, gestos e momentos
que o meu mestre tão sabiamente sabe criar e contar
na boca sem escrita das bikuatas do verbo e do vento...

 

 

Namibiano Ferreira

Dinheiro

23.05.11, Alice Alfazema

"É, você está muito só.

      Você está só, porque as pessoas que encontra pela rua estão correndo atrás de dinheiro, com medo de ficarem sós na velhice e não terem onde cair mortas e passarem os últimos dias de suas vidas na sarjeta, pedindo dinheiro, precisando de dinheiro, precisando de carinho, precisando de outras pessoas que as compreendam, que sejam solidárias com elas, que digam alguma coisa bonita para elas, alguma coisa que as animem, alguma coisa que as façam crer que a vida é algo maior, algo mais importante do que uma sequência de dias solitários, algo melhor do que um amontoado de dias.
      Você está só, porque a vida é um amontoado de dias.
      E, ainda por cima, o tempo não existe, os dias não existem, a vida não existe.
      Você está só, porque as pessoas do lugar onde você trabalha estão correndo atrás de dinheiro, mantendo as aparências de uma amizade falsa por você, porque elas não te conhecem direito, mesmo, porque elas não estão nem um pouco interessadas em conhecer você, de verdade, porque conhecer você, de verdade, e manter uma amizade de verdade com você, as obrigaria a tomar uma posição verdadeira a favor de você, caso as pessoas que pagam o salário delas, o seu salário, resolvam se voltar contra você, ameaçando você com a perda do seu emprego, do seu salário, da sua vida acima das sarjetas e, consequentemente, ameaçando o emprego delas, o salário delas, o dinheiro delas, a vida delas acima das sarjetas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, o dinheiro delas, a vida delas e, no dia em que você perder o seu emprego, as pessoas do lugar onde você trabalha vão sorrir para você, vão desejar boa sorte a você, mas vão demonstrar para as pessoas que pagam o salário delas, que pagavam o seu salário, que elas não estão com você para o que der e vier, que elas não são tão próximas assim de você, que elas gostam muito mais das pessoas que pagam o salário delas, o dinheiro delas, do que de você. E você nunca mais vai se encontrar com as pessoas do lugar onde você trabalha, as que almoçaram tantas vezes com você, que riram tanto das piadas que você contava.
      E você agiria da mesma forma que as pessoas do lugar onde você trabalha, caso elas perdessem os empregos delas. 
      Você está só, porque a sua vida custa dinheiro, porque a sua vida é o dinheiro.
      Você está só, porque a escola que você frequenta está correndo atrás de dinheiro, ensinando os alunos a arrumar uma dessas profissões de arrumar dinheiro.
      Você está só, porque você tem que arrumar uma profissão que te ajude a arrumar dinheiro, um trabalho cujo único objetivo é fazer com que você ganhe dinheiro.
      Você está só, porque a sua família está pensando em dinheiro, os seus filhos estão pensando no dinheiro que você pode dar a eles, os seus pais estão pensando no dinheiro que eles têm que dar pra você, que eles têm que deixar para você. Será que você vai herdar algum dinheiro quando alguém da sua família morrer? Seria bom herdar algum dinheiro, não seria?
      No último réveillon, quantas pessoas desejaram dinheiro para você?
      Você está só, porque ninguém se interessa pelos seus problemas, pela sua solidão, pelo seu dinheiro que você não tem, pela sua solidão intransponível, pelas injustiças que vivem acontecendo na sua vida, na vida.
      Você está só, porque a imagem de uma criança toda queimada, toda suja de lama, numa maca suja, cheia de moscas voando ao redor, é apenas uma imagem na televisão, patrocinada por um banco que finge ser seu amigo, finge estar à sua disposição no momento em que você mais precisar dele, aquele banco legal, aquele banco amigão.
      Você está só, porque tem dinheiro.
      Você está só, porque não tem dinheiro.
      Você está só, por causa do dinheiro.
      Só dinheiro.
      Só."