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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Sementes de solidão

19.02.11, Alice Alfazema

Há uns meses atrás, antes do Natal, as noticias, sobre a fome das crianças, eram manchete de jornais, revistas e televisões. Hoje parece que tudo isso já passou, deixou de existir… O espírito natalício desapareceu, mas a fome continua, essa que ninguém dá por isso, pois os assuntos que vendem são outros!

 

A fome que hoje se vive, não é só uma fome de alimentos, mas, sim, e também, uma fome de afectos e de atenções, de preenchimentos de alma e carinhos. O que leva um filho a esfaquear um pai, uma mãe? As razões ignoradas, num tempo de solidão. Fala-se da solidão dos velhos, e a solidão das crianças? Daquelas que não o conseguem expressar, das que disso se envergonham, e, das outras, que nem dão por isso.

 

A escola é a família que os acolhe, mas que não consegue, preencher esse vazio, que flutua em seu redor; a solidão dos afectos, que cria razões desconhecidas e não procuradas, que não convêm - desenterrar. Os pais dão o que podem e o que conseguem com o dinheiro, mas o que lhes falta, ninguém, o consegue comprar. Quanto custa um abraço? Um beijo? Um carinho? Um tempo de partilha? Momentos de emoção, sementes de futuro, lembranças de passado? Investe-se naquilo que não vale e perde-se aquilo que se quer.

 

A lembrança dos dias é: um retorno agradável, maravilhoso, daquilo que se viveu e dos valores que nos são transmitidos. Onde, tudo o que foi dito é aprendido, é algo a guardar.  

 

Pergunto-me, onde irão buscar - estas crianças de que falo, lembranças que lhes tragam valores e sementes (para que possam), plantar um jardim - onde não haja solidão.  

Que parva que eu fui

13.02.11, Alice Alfazema

Assunto  de que se fala: hino da "geração parva"

 

 Na minha história eu poria o verbo no passado e diria:

 

Que parva que eu fui,

Começar a trabalhar antes dos quinze anos,

não viver a adolescência,

para ajudar os pais,

por uma ninharia...

levantar-me às 5h, viajar em dois transportes

e trabalhar nove horas diárias,

numa linha de produção...

 

Fazer greves e lutas laborais

para que o horário fosse reduzido

para que licença de maternidade

fosse uma realidade

para que a hora da mama

chegasse a ser verdade,

para que existisse

subsídio de refeição,

de férias e de Natal,

para que outras leis se tornassem uma realidade

tais como o direito ao estudo,

que parva que eu fui...

 

Se soubesse que esta geração

valor não lhe atribuí,

tinha ficado no meu canto,

esperando acontecer,

esmolando

me vitimizando

sentindo pena de mim

que parva que eu fui...

 

Os tempos que correm são difíceis,

nunca o foram fáceis,

a ninharia é a mesma,

que parva que eu fui...

podia ter ficado mais tempo na casa dos pais,

ter trabalhado menos,

não me ter sacrificado pelos filhos,

arranjava antes um cão...

punha as culpas nos outros,

e pensava antes na aparência

no casaco, no carro,

no perfume...

que parva que eu fui...

 

Agora não posso voltar atrás,

numa próxima encarnação...Quem sabe?

 

Alice A.