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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Aprender a olhar

03.01.11, Alice Alfazema

 

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e,
em silêncio, ia atirando com a mão
umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega:
era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos,
sonhando com pardais.
Borboletas brancas,
duas a duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos
que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes um galo canta.
Às vezes um avião passa.
Tudo está certo,
no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.
 
 
 
Cecília Meireles, A arte de Ser Feliz



Paz

02.01.11, Alice Alfazema

 

Ode à Paz

 

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!

 

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"

Desejo para 2011

01.01.11, Alice Alfazema

 

Eu gostaria que este ano:

 

A inteligência fosse superior à força.

 

O egoísmo  fosse um mal curável.

 

Que as futilidades, fossem só isso mesmo - futilidades.

 

Os direitos deixassem de ser utopias.

 

Que os deveres tivessem o mesmo peso dos direitos.

 

A fome fosse uma opção.

 

Que a alegria fosse genuína.

 

Que a politica não fosse uma arma.

 

Que as mentiras fossem crime.

 

Que não considerassem os sonhadores - loucos.

 

Que o dinheiro fosse um deus secundário.

 

Que o mundo não se resumisse a um quadrado - chamado televisão.

 

 

 

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