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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Não fales: eu entendo...

13.11.10, Alice Alfazema

 Fotografia Rouxinol de Pomares

 

 - Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro. A sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...

Eu murmurei:

- É pena que não converse!

O meu principe recuou, com olhares chamejantes, de apostolo:

- Como que não conversa? Mas é justamente um conversador sublime!

 

 

Eça de Queirós

 

 

Diz o povo que um castanheiro leva 300 anos a crescer, 300 anos a viver e 300 anos a morrer.

A Amizade

12.11.10, Alice Alfazema

 


"A amizade é a única relação afectiva incompatível com a ambivalência. Já vimos que, no enamoramento, podemos odiar a pessoa amada. Podemos ser ambivalentes em relação aos nossos pais ou aos nossos filhos. Não podemos, ao contrário, ser ambivalentes em relação aos amigos. Se no-lo tornarmos, a amizade sofre e, se a ambivalência continua, desaparece. É este, provavelmente, o motivo pelo qual os amigos preferem ver-se de quando em quando, quando têm vontade, em lugar de viverem juntos. Uma convivência contínua cria, inevitavelmente, motivos de dissabor, de ressentimento, pequenas coisas que, no entanto, somando-se, se podem tornar grandes. A convivência tende a consolidar as relações afectivas mas, ao mesmo tempo, divide. Os enamorados escolhem esta estrada e este risco porque tendem à fusão. A amizade, pelo contrário, prefere renunciar à fusão a favor do encontro. O encontro é sempre positivo. A amizade é  uma filigrana de encontros, não é ambivalente."

 

Francesco Alberoni

Plantei girassóis. Semeei estrelas.

11.11.10, Alice Alfazema

 

"Das mãos que me vestiram e acarinharam em criança, guardei os gestos de silêncio e ternura.

 

Em vibração e alegria adolesci.

 

Nas margens dos voos e das vertigens amadureci.

 

Bebi o sol e mar, mergulhei as mãos no azul, provei a água dos frutos, sorvi o orvalho das rosas.

 

Com estes fios, por dentro, me teci, me cobri e descobri.

 

Com eles atravessei poentes e alvoradas, sulquei caminhos, subi montanhas.

 

Plantei girassóis. Semeei estrelas."

Aposta

04.11.10, Alice Alfazema

O Vento Norte discutia com o Sol acerca de qual deles era o mais forte. Como nenhum dos dois queria reconhecer a superioridade do outro, resolveram submeter o seu poder a uma prova: o primeiro que conseguisse tirar o casaco de um caminhante seria o vencedor.

O Vento Norte começou a soprar furiosamente fazendo-se acompanhar de violentas chuvadas, mas não conseguiu arrancar o casaco ao homem. Apenas fez que se abrigasse ainda com mais força, segurando o casaco com ambas as mãos.

Chegou a vez de o Sol mostrar o seu poder. Delicadamente, começou a abrir os seus raios, por entre as nuvens, e a lançar o seu calor sobre a cabeça do homem, de tal modo que o obrigou a tirar o casaco e a sentar-se à sombra de uma árvore.

E assim o Sol ganhou a aposta.

 

Esopo

 

Tudo o que fazemos ou dizemos podemos fazê-lo com delicadeza...tal como o Sol.