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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Da Arrábida

05.10.10, Alice Alfazema

 


Da Arrábida

 


Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:
Aquela saudade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saudosa, e branda?

Daqui mais saudoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roçadas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saudade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaidade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quêo seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Ardam postos no fogo os corações.





 Frei Agostinho da Cruz

Aleitamento Materno

04.10.10, Alice Alfazema

«Se fosse disponibilizada uma nova vacina 
que pudesse prevenir a morte de um milhão de crianças 
ou mais por ano e que, além disso, fosse barata, segura, 
de administração oral e não exigisse uma cadeia de frio, 
esta tornar-se-ia numa prioridade imediata para a saúde pública.
A amamentação pode fazer tudo isso e mais ainda, 
mas precisa da sua própria "cadeia quente" de apoios 
- ou seja, cuidados profissionalizados que permitam às mães 
ganhar confiança e lhes mostrem o que fazer e as protejam de más práticas.»

 

 

 

http://www.leitematerno.org/index.html

Lancet 1994

 

 

Durante a gravidez a futura mãe recebe carinho, compreensão, mimos...quando o bebé nasce tudo isso desaparece, acontece que é nessa altura em que tudo isso é mais necessário.

Vampiros

03.10.10, Alice Alfazema
No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Zeca Afonso  

Passam os anos e esta letra não deixa de estar actual!

 

Cantem, cantem...que a vida vai melhorar...

03.10.10, Alice Alfazema

 

 

"Canta, Canta, Minha Gente"

 

 Martinho da Vila


Canta, canta minha gente
Deixa a tristeza pra lá
Canta forte, canta alto
Que a vida vai melhorar

Cantem o samba de roda
O samba-canção e o samba rasgado
Cantem o samba de breque
O samba moderno e o samba quadrado
Cantem ciranda e frevo
O coco, maxixe, baião e xaxado
Mas não cantem essa moça bonita
Porque ela está com o marido do lado

Quem canta seus males espanta
Lá em cima do morro ou sambando no asfalto
Eu canto o samba-enredo
Um sambinha lento ou um partido alto
Há muito tempo não ouço
O tal do samba sincopado
Só não dá pra cantar mesmo
É vendo o sol nascer quadrado

 

 

Cantem...

Porque quem canta seus males espanta...

 

Chuva - Mariza

03.10.10, Alice Alfazema

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

 

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

 

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

 

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

 

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

 

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

 

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

 

Jorge Fernando

 

 

 

 

Três milhões da EDP para Pinho(agradecemos a quem?)

03.10.10, Alice Alfazema

Três milhões da EDP para Pinho

 

Agradecemos à EDP "o seu generoso apoio ao seminário ‘Leaders in Global Energy’". São estas as palavras com que a Universidade de Columbia agradece o donativo de cerca de três milhões de euros concedido pela companhia eléctrica portuguesa e que inclui o patrocínio ao seminário do ex-ministro da Economia Manuel Pinho, onde aliás José Sócrates esteve presente na semana passada.

 

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/politica/tres-milhoes-da-edp-para-pinho

 

 

 

É com imensa tristeza, revolta e vergonha, que li este artigo, gostaria que a EDP fosse às escolas portuguesas e entregasse donativos destes para coisas tão básicas como cadeiras e mesas. E vissem como é o dia a dia de alunos com mais de 1.80m de altura sentados em cadeiras para gente de 1.50m.

 

Tão generosos para os outros porquê?

 

 

 

O homem das castanhas

02.10.10, Alice Alfazema

Música- Paulo de Carvalho

 

Letra- Ary dos Santos

 

Canta-Carlos do Carmo


 

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ela arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

 



 O Outono não seria o mesmo sem o homem/mulher das castanhas. Vidas desvalorizadas que enchem o quotidiano de quem passa, com cheiros e sabores de outrora e de agora.

 

Quem quer quentes e boas, quentinhas?

 

Quem compra leva mais calor p´ra casa.

 

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