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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Franqueza:Sinceridade

23.08.10, Alice Alfazema

- Mas então, a sinceridade não tem valor para ti - protestei.

- Claro que tem, Damião. O que se passa é que me recuso a instituí-la por decreto.

- E como é que há-de surgir esse mundo que tu e eu desejamos?

- À medida que o tempo e a vida forem passando, vai acontecer, e já está a acontecer-te, que te cruzarás com pessoas com as quais te sentes tão livre que não terás necessidade de mentir. Encontrarás pessoas às quais permitirás serem como são, a tal ponto que elas não precisarão de te mentir. Esses são os teus verdadeiros amigos. Zela por eles-sentenciou o Jorge.- E  se esses amigos e tu se derem conta de que convosco começa toda uma nova ordem...

- Diz-me, para ti a franqueza é património exclusivo da amizade?

- É. Mas cuidado: a franqueza é uma coisa e a sinceridade outra.

- Outra?

- Outra!

- Isto é?

- Franqueza vem de franco, de aberto. Lembra-te da ideia de «livre trânsito». Ser franco significa que não há nenhum espaço oculto dentro de mim que seja vedado. Não existe nenhum recanto do meu pensamento, sentimento ou memória que não conheça ou que queira manter reservado. A sinceridade é muito menos que isso. Para mim, a sinceridade é: «Tudo o que te digo é verdade. Pelo menos verdade para mim.» Ou seja, «não te minto», como dirias tu.

- Ou seja, pode-se ser sincero mas não franco.

- Com toda a certeza. A franqueza, Damião, é um luxo, como o Amor (assim, com maiúscula). Um sentimento reservado para poucos, muito poucos.

- Mas, Jorge, se isso é verdade, eu posso ter espaços dentro de mim que te estão vedados, sem deixar por isso de ser sincero. É o  mesmo que dizer que ocultar não é mentir.

- Pelo menos para mim ocultar não é mentir. Sempre e conquanto não mintas para ocultar.

- Um exemplo, por favor.

 

Diálogo entre um casal.

- Que se passa?

- Nada...

(Sim. Passa-se alguma coisa e ele sabe, embora não consiga explicar o que é. Está a mentir.)

 

Outro caso:

- Que se passa?

- Não sei...

(Sim. Passa-se alguma coisa e ele sabe o que é. Então, está a mentir.)

 

Mais um:

- Que se passa?

- Não me apetece responder-te agora.

(Pode parecer mais problemático, mas esta pessoa está a ocultar e, no entanto, é sincera.)

 

- Mas, Jorge, nos primeiros dois exemplos, a minha namorada seria capaz de me tolerar ou de me compreender. Neste último caso, mandava-me à merda.

- Bom, então talvez esteja na hora de repensares que tipo de companheira tens, que compreende e tolere quando mentes e castiga quando és sincero.

- Tens sempre uma resposta para tudo?

- Tenho! Todos temos sempre uma resposta. Ainda que, por vezes, seja o silêncio, outras vezes, a confusão, e outras, ainda, a fuga.

 

 

 

Ninguém tem mais probabilidades

de cair num engano

do que aquele para quem a mentira

se ajusta aos seus desejos

 

 

 

 

in, Deixa-me Que Te Conte, Jorge Bucay