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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Bonecas

22.02.12, Alice Alfazema

 

 

Já me perdi no tempo. Meus cabelos ficaram brancos e baços. Já brinquei com bonecas. Dei gargalhadas cristalinas. O tempo passou, e eu azedei. Criei nata, como um leite esquecido, coalhei. E o bolor veio, entranhando-se-me nos  ossos. Quero inverter isto, quero que a pele se alise, que os músculos voltem à sua rigidez original. Não posso, o tempo não me deixa. No entanto, a criança que brincou com bonecas, ainda mora em mim. Está no entanto escondida, tem medo de ser redescoberta, tem medo dos outros - não avança. Tento ir buscá-la. Recordo os laços azuis, e os folhos de seda. Lembro-me daquele véu que me cobria o cabelo, quando ia à missa dominical. Dos cachos de caracóis, feitos ao pormenor, que me adornavam os ombros. Dos vestidos leves. Da água de colónia. Do pó de arroz. Do cheiro dos bolos de canela. Do avental branco, e daquelas mãos sapudas que me abraçavam, quando eu precisava. 

 

 

 

 

Alice Alfazema 

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