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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Autocrítica

08.04.10, Alice Alfazema

 

 

Estive lá desde o primeiro instante,

na adrenalina

que corria nas veias dos teus pais

quando fizeram amor para te conceber,

e depois no fluido

que a tua mãe bombeava para o teu pequeno coração,

quando ainda eras um parasita.

Cheguei a ti antes de saberes falar,

antes ainda de conseguires entender

o que os outros te diziam.

Já lá estava, quando tropegamente

 tentavas dar os teus primeiros passos

perante o olhar brincalhão e divertido de todos.

Quando estavas desprotegido e exposto,

quando eras vulnerável e carente.

 

Apareci na tua vida

pela mão do pensamento mágico;

acompanhavam-me...

as superstições e os conjuros,

os fetiches e os amuletos...

as boas maneiras, os costumes e a tradição,

os teus professores, os teus irmãos e os teus amigos...

 

 

Antes de saberes que eu existia

dividi a tua alma num mundode luz e noutro de obscuridade.

Um mundo do que está correcto e outro do que não o está.

 

Dei-te os teus sentimentos de vergonha,

mostrei-te tudo o que há em ti de defeituoso,

de feio,

de estúpido,

de desagradável.

Pendurei-te a etiqueta de "diferente",

quando te disse pela primeira vez, ao ouvido,

que algo não estava bem em ti.

 

Existo desde antes da consciência,

antes da culpa,

antes da moralidade,

desde os primórdios do tempo,

desde que  Adão se envergonhou do seu corpo

ao reparar que estava nu...

e se cobriu!

 

Sou o convidado não querido,

o visitante não desejado,

e, no entanto,

sou o primeiro a chegar e o último a partir.

Tornei-me poderoso com o tempo

escutando os conselhos dos teus pais sobre como

triunfar na vida.

 

Observando os preceitos da tua religião,

que te dizem o que fazer e o que não fazer

para poder ser aceite por Deus no Seu reino.

Sofrendo piadas cruéis

dos teus colegas de escola

quando se riam das tuas dificuldades.

Suportando as humilhações dos teus superiores.

Comtemplando a tua desconjuntada imagem no espelho

e comparando-a, depois, com a dos «famosos»

que aparecem na televisão.

 

E agora, finalmente,

poderoso como sou

e pelo simples facto

de ser mulher,

de ser negro,

de ser judeu,

de ser homossexual

de ser oriental,

de ser incapacitado,

de ser alto, baixo ou gordo...

posso transformar-te

num monte de porcaria,

em escória,

num bode expiatório,

no responsável universal,

num maldito

bastardo

inútil.

 

Gerações e gerações de homens e mulheres

apoiam-me.

Não consegues livrar-te de mim.

 

A dor que causo é tão insuportável

que, para suportar-me,

terás de passar-me aos teus filhos,

para que eles me passem aos seus,

ao longo dos séculos e séculos.

 

Para ajudar-te a ti e à tua descendência,

disfarçar-me-ei de perfeccionismo,

de elevados ideais,

de autocrítica,

de patriotismo,

de moralidade,

de bons costumes

de autocontrolo.

 

Ador que te causo é tão intensa

que quererás negar-me

e, para isso,

tentarás esconder-me atrás das tuas personagens,

atrás das tuas drogas,

atrás da luta pelo dinheiro,

atrás das tuas neuroses,

atrás da tua sexualidade indiscriminada.

Mas não importa o que faças,

não importa onde vás.

Eu estarei lá,sempre contigo,

dia e noite,

sem descanso,

sem limites.

 

Eu sou a causa principal da dependência,

da possividade,

do esforço,

da imoralidade,

do medo,

da violência,

do crime,

da loucura.

 

Eu ensinei-teo medo de seres rejeitado

e condicionei a tua existência a esse medo.

De mim dependes para continuares a ser

essa pessoa procurada, desejada,

aplaudida, gentil e agradável

que hoje mostras aos outros.

De mim dependes

porque eu sou o baú onde escondes-te

aquelas coisas desagradáveis,

mais ridículas,

menos desejáveis de ti mesmo.

 

Graças a mim

aprendeste a conformar-te

com o que a vida te dá,

porque, no fim de contas,

qualquer coisaque vivas será sempre mais

do que julgas merecer.

Adivinhaste, certo?

 

Sou o sentimento de rejeição que sentes para contigo mesmo.

 

                                              Jorge Bucay