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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Vermelho

02.12.11, Alice Alfazema

 

 

 

Minha presença de cetim,

Toda bordada a cor-de-rosa,

Que foste sempre um adeus em mim

Por uma tarde silenciosa...

 

Ó dedos longos que toquei,

Mas se os toquei, desapareceram...

Ó minhas bocas que esperei,

E nunca mais se me estenderam...

 

Meus Boulevards de Europa e beijos

Onde fui só um espectador...

- Que sono lasso, o meu amor;

- Que poeira de oiro; os meus desejos...

 

Há mãos pendidas de amuradas

No meu anseio a divagar...

Em mim findou todo o luar

Da lua de um conto de fadas...

 

Eu fui alguém que se enganou

E achou mais belo ter errado.

Mantenho o trono mascarado

Aonde me sagrei Pierrot.

 

Minhas tristezas de cristal,

Meus débeis arrependimentos

São hoje os velhos paramentos

Duma pesada Catedral.

 

Pobres enleios de carmim

Que reservara para algum dia...

A sombra loira, fugidia,

Jamais se abeirará de mim...

 

- Ó minhas cartas nunca escritas,

E meus retratos que rasguei...

As orações que não rezei...

Madeixas falsas, flores e fitas...

 

O «petit-bleu» que não chegou...

As horas vagas do jardim...

O anel de beijos e marfim

Que meus dedos nunca anelou...

 

Convalescença afectuosa

Num hospital branco de paz...

A dor magoada e duvidosa

Dum outro tempo mais lilás...

 

Um abraço que nos acalenta...

Livros de cor à cabeceira...

Minha ternura friorenta -

Ter amas pela vida inteira...

 

Ó grande Hotel universal

Dos meus frenéticos enganos,

Com aquecimento-central,

Escrocs, cocottes, tziganos...

 

Ó meus Cafés de grande vida

Com dançarinas multicolores...

- Ai, não são mais as minhas dores

Que a dança interrompida...

 

 

 

Elegia, Mário de Sá-Carneiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema