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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Quero o meu salário

27.06.11, Alice Alfazema

 

 

Num caminho difícil, de pedras e muita areia,

Sob um sol escaldante,

Seis cavalos puxavam uma carruagem.

Mulheres , um padre, velhos, todos desceram;

Os animais suavam, sofriam, não aguentavam mais.

Uma mosca apareceu e aproximou-se dos cavalos,

Tentando, com o seu zumbido,

Animar os tão sofridos.

Morde um , morde outro e voa sem parar

Certa de  que fará a máquina funcionar.

Senta-se nas rédeas e no nariz do cocheiro.

Enquanto o carro vai rodando,

Vê  as pessoas caminhar,

E acha que o mérito é dela.

Vai e vem, põe mãos à obra: mais parece

Um sargento a fiscalizar a manobra.

Precisa de fazer avançar a tropa

E alcançar a vitória.

A mosca, a certa altura, pôs-se a reclamar

De que só ela tinha de trabalhar,

Que ninguém a ajudava

A tirar os cavalos de dificuldades.

O padre lia no seu livro:

Que perda de tempo! Uma mulher cantava:

Não era dessa música que ela precisava!

Então, resolve cantar-lhe ao ouvido

E cria a maior confusão.

Depois de muito trabalho,

A carruagem chega ao destino.

- Vamos respirar - disse a mosca aliviada. -

Eu fiz tanto para que chegassem à planície,

Que agora, senhores, quero o meu salário.

 

Jean de La Fontaine

 

De quem é o mérito?

 

Alice Alfazema