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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Saúde mental

19
Jan22

saúde mental.jpg

Ilustração Hala Maher Yehia

Esta pintura foi criada pela artista como meio de chamar a atenção sobre a forma como lidamos com a nossa saúde mental,  olhamos claramente para a boca esborratada, o que falta ali? É claro nesta visão de que se trata da mesma pessoa, no entanto a pessoa que cala não é a mesma que fala. A força da dualidade existente dentro de cada um nem sempre vem à tona, pode não haver demonstração, pode haver um silêncio em que ninguém dá por isso, poderá ser uma tristeza prolongada, uma angústia disfarçada de alegria. É isto a saúde mental, em que o próprio cérebro se encontra e se perde em pânico na busca de respostas para as quais nenhuma lhe sai pela boca. 

A questão da saúde mental raramente é levada a público e a sério, na maioria das vezes prescrevem-se medicamentos para os sintomas sem no entanto se tratarem também as suas causas, no ciclo da causa efeito há quem morra na busca de sair da sua dor, talvez porque essa dor é uma causa e não um sintoma. 

 

 

A capacidade de imaginar

16
Jan22

lirio.jpg

Ilustração Vera Kavura

O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.

 

Poema de Nuno Júdice