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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Gosto de ser velha

04
Nov25

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Hoje apercebi-me que gosto genuinamente de ser velha, a maior das liberdades é aquela que vive em nós. 

A velhice deu-me uma maior clareza de pensamento, considero isso um bem maior. Num paralelo com a separação dos resíduos, plástico, cartão, vidro e indiferenciados,   é assim a lógica do pensamento na velhice, há coisas e pessoas que nos acrescentam e das quais não abdicamos porque de algum modo se encaixam nas nossas emoções, acções e hábitos diários. Nesta roda roda, há outras que nos usam como recipientes de vidro ou de plástico com tudo o que isso implica pela dinâmica do material em si, existem, ainda, as outras que nos usam como cartão, se for cartão limpo estamos quase safos, mas se o cartão for contaminado com gordura, aí perde-se a essência, e isso é mau.

Contudo,  a velhice permite-me assomar a uma liberdade plena de escolhas conscientes, que derivam do traquejo da vida, e coisas que antes tinham uma importância maior, passam a simples vírgulas que levam a determinadas explicações catalogadas como numa biblioteca, tal como na reciclagem transformam-se noutros significados,  entrando em processo de outra vida a utilidade multiplica-se. O valor? Isso depende da utilidade.

As mulheres

12
Out25

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As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Poema Daniel Faria , in Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)