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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Morangos

 

Ilustração Sarah K. Lamb

 

 

 

No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a música e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
Não estamos mais sábios, não temos
melhores razões. Na viagem necessária
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

 



Rui Pires Cabral, in 'Longe da Aldeia'

 

Março dia 23 - Mulheres que tecem a seda do mar

A seda é feita dos casulos construidos por bichos de seda - mas há uma outra, rara, é conhecida como a seda do mar ou o bisso, que vem de um molusco, Chiara Vigo, na ilha de Sant'Antioco, na Sardenha, colhe a saliva desta variedade rara de mexilhão, Pinna nobilis, que é o maior molusco bivalve nativo do mar Mediterrâneo.

 

 

 

A pulseira é feita de um fio antigo, o bisso que é mencionado na pedra Rosetta e dizem ter sido encontrado nos túmulos dos faraós.

 

Alguns acreditam que foi o pano que Deus disse a Moisés para colocar no primeiro altar. Foi o tecido mais fino conhecido no antigo Egipto, Grécia e Roma, uma de suas propriedades ​​é a forma como brilha quando exposto ao sol. É extraordinariamente leve. A matéria-prima vem das águas brilhantes que cercam a ilha. Onde todas as primaveras, Chiara Vigo mergulha para cortar a saliva solidificada deste grande molusco. 

 

 

Esta mulher não vende os seus trabalhos, pois diz: Seria como comercializar o voo de uma águia, o bisso é a alma do mar, é sagrado.

 

 

Ela dá o tecido para as pessoas, com a intenção de as ajudar. Pode ser um casal que decidiu casar, uma mulher que quer uma criança, ou uma que tenha recentemente engravidado. Acredita-se que o bisso traga boa fortuna e fertilidade

 

O pai de Chiara morreu quando ela tinha oito anos e a sua mãe era uma obstetra que trabalhava fora de casa, assim ela foi criada pela avó - e foi a avó que lhe ensinou a arte de trabalhar e bordar com bisso. A avó, por sua vez, aprendeu com sua própria mãe, e assim por diante, de volta através das gerações.

 

 

 

Tecer a seda do mar é o que minha família vem fazendo há séculos, diz Chiara. O fio mais importante, para a minha família, era o fio de sua história, sua tradição. Eles nunca fizeram um centavo a partir dela.

 

 

 

Ver mais aqui.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

Março dia 22 - Mulheres que carregam água

O acesso à água potável ainda é um desafio diário para grande parte das populações do mundo.

 

 

Uma enorme fatia da  população mundial não tem acesso a água potável.

 

 
Mulheres gabras do norte do Quênia gastam até cinco horas diárias carregando pesados galões cheios de água barrenta. Uma seca duradoura levou essa já árida região a uma crise de abastecimento
 
 

As mulheres gabras do norte do Quénia gastam até cinco horas diárias carregando água, levando os pesados recipientes nas costas.

 

 

 

No Paquistão, mulheres carregam água nos arredores de  Islamabad.

 

 

 

Por muitos sítios são as mulheres que têm a dura função de levar a preciosa água para casa, na foto acima é o exemplo de Nova Déli, na Índia.

 

 

 

Aqui é uma menina que carrega a água para casa através da paisagem ressequida do Sudão do Sul. Sendo assim é desde cedo que esta pesada busca por este bem essencial é feita pelas mulheres.

 

 

Na Nigéria...

 

Na Tanzânia, por causa da seca, hoje uma menina precisa de percorrer distâncias maiores em busca de água em comparação com o trajeto que a mãe fazia anos antes. O tempo extra significa que ela não pode frequentar a escola.

 

Segundo a ONU, as mulheres da África Subsaariana gastam uma média de 40 bilhões de horas por ano colectando água.

 

As mulheres “estão entre as pessoas mais vulneráveis às mudanças climáticas”, conclui um relatório do Fundo das Nações Unidas para a População, “parcialmente porque em muitos países elas compreendem uma parcela maior da força de trabalho agrícola e parcialmente porque elas tendem a ter acesso a menos oportunidades de geração de renda”.

 

Quando combinadas com a discriminação económica e social, as mudanças climáticas ameaçam o direito da mulher em questões como educação, informação, água, alimentação, atendimento médico e de viver livre da violência, afirma Eleanor Blomstrom, da Organização da Mulher para o Meio Ambiente e Desenvolvimento.

 

 

Onde a maldade era fria e intensa como um banho de gelo. Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles...

 

Clarice Lispector

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

 

 

Março dia 20 - Mulheres costureiras

Todos os dias vestimos roupas, ajeitamos casacos, dobramos camisas, lavamos lençóis e pomos toalhas de pano na mesa onde vamos jantar. Ali no meio do pano há pespontos, ziguezagues, há linhas de muitas cores.

 

 

 

Abotoamos os botões, metemos as chaves nos bolsos e dormimos em lençóis macios.

 

 

 

Vincamos as mangas das camisas com vapor quente, ajeitamos as golas e os punhos.

 

 

Vestimos as calças e vemo-nos ao espelho. São lindas. São azuis. E macias.

 

 

Que mãos terão costurado aqueles bolsos onde aqueço as minhas mãos quando tenho frio? 

 

 

De que cor é a pele de quem me costurou a minha manta preferida?

 

 

Quantos anos têm as roupas que tenho guardadas no meu roupeiro? Será que atravessaram oceanos? Vieram de um país africano ou asiático? De onde vieram? Quem as fez ainda estará vivo? Será feliz? 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

Março dia 13 - Mulheres que vivem num bordel

 

 

Anupa não sabe que idade tem. É uma trabalhadora sexual que trabalha no maior e mais antigo bordel do Bangladesh. Foi sequestrada por um traficante de pessoas e vendida por 400 dólares. Actualmente, é forçada a ter relações sexuais com vários clientes por dia para poder pagar a sua "dívida". Para que se desenvolvesse mais rápido e parecesse mais velha deram-lhe os mesmos esteróides que se dão às vacas, para que estas engordem. "Antes de começar a tomar os comprimidos, qualquer beleza que pudesse algum dia ter tido, pura e simplesmente desapareceu. A minha pele ficou estragada e o meu corpo já não é como antes."

 

 

Entre uma concorrida estação de comboios e um porto de mercadorias cheio de milhares de homens, Dautladia é a casa de quase duas mil trabalhadoras sexuais, a maioria delas crianças e muitas submetidas à escravatura sexual. Construído pelos britânicos durante o domínio colonial, actualmente é propriedade da família de um político da região, que beneficia com o crescimento económico da zona.

 

 

 

 

 

O Bangladesh é um dos poucos países islâmicos que não criminaliza a prostituição, ainda que alguns bordéis tenham fechado.

 

Segundo dados da Action Aid, há cerca de 200 mil mulheres a trabalhar na indústria do sexo no Bangladesh, na sua maioria adolescentes. Apesar de ser ilegal que raparigas menores de 18 anos trabalhem na prostituição, muitas delas acabam por trabalhar neste ofício contra a sua vontade, ou apenas para sobreviverem . E os homens vão ao bordel como escapatória às normas estabelecidas, nas quais o sexo antes do casamento é um tabu e o jogo ilegal.

 

 

 

 

A cada dia que passa, estas raparigas perdem a esperança de poderem abandonar esta vida. "Eu sonho, irmã, com poder ir embora daqui. Os homens vêm, dão-me dinheiro, fazem o que têm a fazer e vão- se embora. Não tenho ninguém que me queira aqui", diz uma trabalhadora sexual que não quis dar o seu nome.

 

Muitas das raparigas em Dautladia pertencem já à segunda ou terceira geração de trabalhadoras sexuais, em alguns dos casos descendentes de mulheres que trabalharam no bordel durante o governo britânico. Mas, apesar das perspectivas de um futuro desolador, algumas tentam assegurar que, pelo menos os seus filhos não lhes sigam os passos. Não é permitida a entrada de crianças no bordel, por isso durante décadas as mães de Dalatdia enviaram os seus filhos, com dois anos, para os seus familiares. Aquelas que estabelecem relações duradouras, por vezes, acabam por casar- se oficialmente, mas o mais comum é que tenham um acordo matrimonial verbal. Nestes casos, as mães deixam os filhos ao cuidado dos pais, dos seus parentes, ou com uma família de acolhimento, num acordo informal e a troco de dinheiro.

 

 

O texto é de Tania Rashid e Soraya Auer, podem ler o artigo completo aqui, as fotografias são de Sandra Hoyn e foram retiradas daqui.

 

 

Alice Alfazema