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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O que são os deveres humanos?

Novembro 27, 2017

Alice Alfazema

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Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. 


Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? 


Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. 


Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. 

 



José Saramago, in Diálogos com José Saramago

 

 

 

Alice Alfazema

 

Quem é que te fez o ninho que tens na cabeça?

Novembro 25, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração Mark Ryden

 

 

E se a tua cabeça fosse um ninho, quem é que te fez o ninho que tens na cabeça? O teu ninho é pesado ou levezinho? É feito com cuidado e resistente? Ou cai ao menor ventinho que lhe passe por cima? Quais são as plantas que se entrelaçam no teu ninho, têm espinhos ou são suaves? As folhas foram cuidadosamente escolhidas ou apanhadas à pressa? Não sabes o que carregas? Será um ninho de vespas? Será um de cucos? Os teus pensamentos seguram o ninho ou o ninho é que alimenta os teus pensamentos? A cada dia que passa esse ninho fica mais bonito ou está a ficar um pesadelo? E se vier uma rabanada de vento e o levar, ficas triste ou alegre? Constróis tu outro ninho ou deixas que outros o construam? Cada raminho que alguém coloca aí representa um pedacinho daquilo que passaste? O teu ninho já é velho? Cheira mal? Está limpo? Tem muito espaço? É aconchegante? Tem parasitas? Tem borboletas? Tem formigas? Tem larvas? Tem ovos? O que poderá nascer desses ovos? Tu é que sabes, afinal és tu que o carregas.

 

 

 

Alice Alfazema

 

Criar laços

Novembro 22, 2017

Alice Alfazema

Fotografia de Michał Lewandowski

 

 

Foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia – disse a raposa.
– Bom dia – respondeu o principezinho com delicadeza. Mas ao voltar-se não viu ninguém.
– Estou aqui – disse a voz -, debaixo da macieira…
– Quem és tu? – disse o principezinho. – És bem bonita…
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Anda brincar comigo – propôs-lhe o principezinho. – Estou tão triste…
– Não posso brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou.
– Ah! perdão – disse o principezinho.
Mas, depois de ter reflectido, acrescentou: – Que significa “cativar”?
– Tu não deves ser daqui – disse a raposa. – Que procuras?
– Procuro os homens – disse o principezinho. – Que significa “cativar”?
– Os homens – disse a raposa – têm espingardas e caçam. E uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. Que significa “cativar”?
– É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Significa “criar laços…
– Criar laços? –
Isso mesmo – disse a raposa. – Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Para ti. não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti…
– Começo a compreender – disse o principezinho. – Existe uma flor.., creio que ela me cativou.
– É possível – disse a raposa. – Vê-se de tudo à superfície da Terra…

 

 

 

Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho)

 

 

 

Fotografia de Agnieszka i Włodek Bilińscy 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

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