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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Cheiro

 

Ilustração Andrea Rivola

 

Acordei com um horrível cheiro a queimado, abri a janela e lá fora havia fumo e cheiro de árvores mortas, detesto este cheiro a morte. Por todos os jornais existem notícias dos incêndios que assolam o país. Dizem que são consequência da seca severa da qual somos vitimas. Depois há os que referem que mãos criminosas divertem-se a atear fogos. E os que falam das consequências das alterações climáticas. E os que falam sobre os números da economia que beneficia disto e os outros que referem aqueles que têm perdas com isto. E há também os que reflectem sobre o que poderíamos fazer para alterar toda esta situação. Todos os anos é assim. Muito se fala, muito se escreve, nada se faz. Detesto este cheiro a morte.

 

 

Alice Alfazema

Ora vamos lá falar das bolsas concedidas aos alunos do ensino superior...

Conhecerão vocês alguns alunos que recebem bolsa, vulgo dinheiro concedido através da inscrição no programa de acesso a bolsas que o Estado português dá a quem demonstre que não reúne as condições monetárias para prosseguir os seus estudos e precisa de uma ajudazinha.

 

 

O pessoal preenche a papelada, dá os números necessários e tal e tal, e vai daí recebe o dinheirinho para pagar as propinas e a residencial que é outro privilégio de um bolseiro. Até aqui tudo bem, devemos proteger e incentivar os mais desfavorecidos, mas depois acontecem milagres e aparecem bolseiros, aqueles que têm sempre direito ao quarto na residencial e os tais que não reúnem as condições monetárias para pagar as propinas, apresentam-se junto dos outros, os que "os pais ganham muito" e podem pagar as propinas e o alojamento e os transportes públicos e a comida trazida de casa, pois esses meninos e meninas apresentam-se em carros nada baratos, que conduzem diariamente, têm computadores topo de gama, talvez comprados no OLX, e telemóveis daqueles que são mais caros que o ordenado mínimo nacional. Muitos dirão: os culpados são os ciganos. 

 

Poderá haver várias hipóteses para que isto aconteça:

 

1) O carro foi ganho num concurso televisivo.

2) O telemóvel foi-lhes oferecido por um sem-abrigo

3) Enganaram-se a preencher os papéis

4) Outros motivos

 

Quem quiser desenvolver o texto esteja à vontade e utilize a caixa de comentários. Não se esqueça de marcar a sua resposta favorita. O resultado do estudo será revelado dentro de vinte anos.

 

 

Alice Alfazema

Ao pessoal da saúde

 

 

“Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?”: “Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres. Trato-os como a qualquer doente e estou-me nas tintas se são isto ou aquilo... Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam”.

 

Médico, Gentil Martins

 

 

Pelos vistos há uma serie de gente ligada à saúde que quer processar o médico Gentil Martins por estas declarações que proferiu numa entrevista. 

 

A mim parece-me, e volto a escrever, parece-me que mais valia irem visitar uns asilos, vulgo residências seniores, lares de terceira idade, o que lhes quiserem chamar, e aí depois poderiam voltar a pensar se realmente valeria a pena processarem este homem, ou se deveriam relevar. Mas isto digo eu, façam o que quiserem, inclusive psiquiatras. 

 

 

Alice Alfazema

Micro contos - Naquela casa

casa.jpg

 

 

Era uma vez uma casa, quem morava lá era muito feliz, sorriam muitas vezes durante o dia, tiravam muitas fotografias e estavam sempre atentos às noticias do momento. Todos os que moravam naquela casa tinham opinião sobre todos os assuntos, eram convictos naquilo que diziam, verdadeiros, activos nas mensagens de partilha. Havia o mundo deles e o mundo dos outros. O mundo deles era aquela casa. 

 

 

Alice Alfazema

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No cabeçalho, pintura de Hiroe Sasaki.

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